O governo de Donald Trump declarou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas, ao mesmo tempo em que promove nos Estados Unidos uma iniciativa para facilitar a aquisição remota de armamentos, incluindo fuzis. Especialistas advertiram que essas novas normas, aliadas à diminuição dos controles sobre exportações, podem resultar em um aumento do desvio de armas americanas para facções no Brasil.
Essa contradição foi exposta em uma reportagem divulgada nesta terça-feira (14). Documentos oficiais revelam que tanto o Departamento de Justiça quanto o Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos dos Estados Unidos (ATF) apresentaram 34 propostas regulatórias, abrangendo mudanças já implementadas e outras ainda em discussão.
Uma das sugestões permitiria que compradores adquirissem armas sem a necessidade de comparecer fisicamente às lojas. A verificação de identidade e antecedentes criminais seria feita à distância, possibilitando que o armamento fosse enviado diretamente para o endereço do comprador.
Facilidade na compra online de fuzis nos EUA
A proposta apresentada pelo governo norte-americano permite que vendedores licenciados transfiram armas para residentes do mesmo estado sem a presença física do comprador no local de venda.
A checagem no sistema federal de antecedentes criminais (NICS) continuaria sendo necessária. No entanto, a identificação do comprador poderia ser validada remotamente. O prazo para comentários sobre essa proposta se encerrará em 6 de agosto de 2026.
Com isso, o processo poderia ser finalizado online, permitindo que o comprador recebesse a arma sem qualquer contato direto com o vendedor. Outra proposta relacionada aos serviços postais americanos revisa as diretrizes para o envio de armas via correios.
John Lindsay-Poland, coordenador de um projeto voltado ao combate ao tráfico de armas para organizações criminosas mexicanas, destacou os riscos associados a essas mudanças.
“Uma das propostas mais alarmantes é a autorização para a venda e entrega de armas pelos Correios, sem qualquer interação presencial.”
Segundo ele, essa medida pode incluir fuzis da plataforma AR-15, amplamente disponível no mercado civil americano e frequentemente encontrada nas apreensões realizadas no Brasil.
O pacote foi oficialmente apresentado pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos em 29 de abril. O órgão afirmou que busca eliminar obstáculos considerados desnecessários para proprietários e comerciantes de armas.
Revogação facilita exportação de armamentos
A preocupação não se limita às vendas internas dos Estados Unidos. Em setembro de 2025, o governo Trump revogou uma política da administração Biden que restringia a exportação de armas civis para 36 países classificados como alto risco.
A lista incluía países como Paraguai, Suriname, Colômbia e Peru, todos com fronteiras com o Brasil ou que integram rotas internacionais utilizadas pelo tráfico de drogas e armamentos.
A política anterior estabelecia uma presunção contrária à autorização para pedidos de exportação destinados a nações com histórico conhecido de desvio de armas ou violação dos direitos humanos. Trump eliminou essa barreira e simplificou as exigências documentais para os exportadores.
O Departamento de Comércio dos EUA informou que essa mudança poderá gerar “centenas de milhões de dólares por ano” em oportunidades para a indústria armamentista americana.
A revogação não extinguiu todas as licenças necessárias. A maioria das exportações envolvendo pistolas e fuzis continua sujeita à autorização governamental. Contudo, especialistas acreditam que a remoção da presunção pode levar ao aumento da quantidade legalmente exportada que acaba desviada para grupos criminosos.
Um relatório do Escritório de Prestação de Contas do governo americano revelou que quase 20% das armas recuperadas em cenas criminais na América Central haviam sido originalmente enviadas através de exportações licenciadas nos Estados Unidos.
Fuzis americanos nas apreensões brasileiras
Os Estados Unidos se destacam como uma das principais fontes dos fuzis confiscados pelas autoridades brasileiras. Um estudo realizado pelo Instituto Sou da Paz analisou 3.119 fuzis apreendidos entre 2019 e 2023 no Brasil.
Dentre esses armamentos, 1.701 tiveram sua origem identificada; desse total, 738 foram fabricados nos EUA, enquanto 586 foram feitos no Brasil e 377 vieram de outros países.
As apreensões também demonstraram um crescimento significativo: em 2025, as forças policiais recolheram 2.152 fuzis no país, representando um aumento impressionante de 167% comparado a 2021.
Uma das rotas utilizadas pelo crime organizado começa com a compra legal das armas nos Estados Unidos por pessoas sem antecedentes criminais. Esses indivíduos adquirem os armamentos em lojas legais, depois desmontam-nas e ocultam-nas em cargas comuns antes do envio ilegal ao Brasil.
No final de maio deste ano, foi encontrado um fuzil AK-47 enviado da Flórida escondido dentro de um forno no Aeroporto Internacional de Viracopos em Campinas.
No mês seguinte, agentes localizaram outros 30 fuzis desmontados ocultos dentro de prensas hidráulicas e outras mercadorias no mesmo aeroporto; essas cargas tinham como destinos São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Em junho deste ano, a Polícia Rodoviária Federal apreendeu 26 fuzis no Paraná próximos à fronteira com o Paraguai; desses, 22 eram da marca americana Colt embora sua origem ainda precise ser confirmada por perícia técnica.
Sancionamento não abrange vendedores americanos
No mês passado, o governo Trump formalizou a classificação do PCC e CV como organizações terroristas estrangeiras. Essa decisão permite bloquear ativos e aplicar sanções contra indivíduos ou empresas que ofereçam suporte às facções criminosas.
No entanto, essa designação não penaliza automaticamente as lojas americanas que comercializam legalmente armamentos posteriormente desviados para atividades criminosas nem torna mais rigorosa a supervisão sobre compradores intermediários ou exportadores.
Lindsay-Poland acredita que o grande impulsionador do tráfico é a extensão e permissividade do mercado civil norte-americano. Transações suspeitas podem ocorrer legalmente e só são descobertas quando as armas aparecem fora dos Estados Unidos.
Bruno Langeani, consultor sênior do Instituto Sou da Paz, levantou questionamentos sobre se as sanções impostas ao PCC e CV incluirão lojas na Flórida que frequentemente aparecem nas investigações relacionadas às apreensões brasileiras.
Ele argumenta que sem ações direcionadas aos vendedores e intermediários envolvidos nesse comércio ilícito, a classificação das facções pode se revelar mais uma estratégia política do que uma solução efetiva para conter o fornecimento ilegal dessas armas.
O governo brasileiro tem recusado reconhecer PCC e CV como grupos terroristas. O Itamaraty defende que essas facções devem ser tratadas como organizações criminosas convencionais e expressa preocupação quanto ao uso dessa classificação como justificativa para ações unilaterais por parte dos EUA em território brasileiro.
Crescimento das fábricas clandestinas
A origem das armas americanas não é a única preocupação das autoridades brasileiras; o Ministério da Justiça e Segurança Pública considera o aumento das fábricas clandestinas no Brasil uma ameaça significativa atualmente.
No ano passado (2025), operações conjuntas da Polícia Federal e da Polícia Militar resultaram no fechamento uma fábrica localizada em Santa Bárbara d’Oeste (SP), disfarçada como empresa fornecedora peças aeronáuticas;
a instalação utilizava tecnologia industrial avançada com capacidade estimada em produzir até 3.500 fuzis anualmente. Algumas organizações têm conseguido reproduzir modelos estrangeiros conhecidos como AR-15 americano ou AK-47 russo usando componentes nacionais ou importados;
Armas produzidas clandestinamente têm qualidade inferior aos modelos industriais tradicionais mas apresentam preços mais acessíveis junto à eficácia necessária para confrontos urbanos;
Diante desse cenário complexo onde se busca fechar rotas internacionais e desmantelar fábricas clandestinas locais enquanto as propostas visando ampliar vendas remotas nos EUA estão sendo avaliadas; assim sendo consulta pública termina antes mesmo da decisão final do governo Trump sobre transformar essas mudanças em regras definitivas.
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