A escolha dos Estados Unidos como sede da Copa do Mundo durante a presidência de Donald Trump não trouxe mudanças significativas em relação ao tratamento de estrangeiros no país. Em 2018, quando a Fifa anunciou os países que sediariam o evento esportivo, a administração Trump já demonstrava uma postura dura em relação a imigrantes e visitantes, desconsiderando a tradição de acolhimento que caracterizava a América. A entidade responsável pelo futebol mundial pareceu ignorar essas questões delicadas.
Wagner Menezes, professor de Direito Internacional na Universidade de São Paulo e árbitro da ONU, critica a decisão da Fifa: “A entidade deveria ter optado por um país que refletisse valores mais universais. Essa discussão deveria ter ocorrido na seleção das sedes da Copa de 2026, e não neste momento. Cada nação possui seu próprio sistema de controle. Apesar de encararmos a Copa do Mundo como uma celebração, isso não altera as práticas de fiscalização nas fronteiras dos Estados Unidos”, comenta ele.
No contexto de 2018, Trump se dedicava à construção de um muro na fronteira com o México e à separação de crianças de seus pais. A discriminação contra muçulmanos nos EUA, que começou após os atentados de 11 de Setembro, intensificou-se sem qualquer disfarce. Esses fatores foram ignorados pela Fifa, que preferiu priorizar as promessas financeiras e estruturais oferecidas pelos Estados Unidos em detrimento das candidaturas do México e do Canadá, adotando uma retórica expansionista.
A hostilidade enfrentada pela delegação iraniana e a proibição de entrada do árbitro somali Omar Artan são apenas exemplos preocupantes dentro deste grande evento esportivo global. Há relatos sobre o constrangimento vivido por jornalistas africanos, árabes e latino-americanos, que têm sido alvo de checagens excessivas e aleatórias de seus equipamentos eletrônicos, além de enfrentarem revistas em celulares e laptops. O tratamento dado a esses profissionais frequentemente envolve agressividade e limitações severas em áreas abertas à imprensa.
O Comitê para Proteção dos Jornalistas (CPJ) e os Repórteres Sem Fronteiras (RSF) emitiram alertas específicos para os repórteres que cobrem a Copa nos EUA. As organizações lembraram que ter uma credencial não garante segurança; jornalistas podem ser submetidos a interrogatórios migratórios, ter seus dispositivos confiscados e ver suas mensagens e redes sociais inspecionadas. Existe ainda o risco de deportação ou negativa de entrada mesmo para aqueles com documentação regular. Os RSF aconselharam a desativar recursos como reconhecimento facial nos celulares, apagar informações sensíveis antes da entrada nos EUA e manter contatos jurídicos emergenciais impressos.
No Brasil, as emissoras que cobrem o torneio – especialmente a Rede Globo, uma das mais influentes – apresentam essa realidade com considerável hipocrisia. Elas promovem um clima festivo entre seleções e torcedores enquanto minimizam o problema da xenofobia americana, tratando-o como uma questão isolada. Para completar esse cenário complicado, os brasileiros devem lidar com uma seleção nacional sem identidade clara, composta por jovens convertidos rapidamente em ídolos mas cujo futebol dista muito do estilo jogado no passado.
*Este artigo não reflete necessariamente a opinião da Fórum
