Na última segunda-feira (30/6), no Salão Vermelho da Universidade Federal do Rio de Janeiro, aconteceu o evento Diálogos para o futuro: o Brasil em 2050, organizado pela Revista Fórum. A economista Tereza Campello, que ocupa o cargo de diretora socioambiental no BNDES, apresentou uma visão inovadora sobre a agenda ambiental do Brasil.
O encontro, que contou com a colaboração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e teve como patrocinadores o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o Governo do Brasil, a Vale e a prefeitura de Maricá (RJ), reuniu diversas lideranças políticas, acadêmicas e institucionais. O foco das discussões girou em torno de quatro áreas principais: transição ecológica, inovação, neoindustrialização, desenvolvimento social e democracia digital.
Tereza Campello enfatizou que a conversa sobre transição ecológica não deve se limitar à descarbonização e à transição energética nos padrões frequentemente abordados na Europa. “Estamos presos em discussões futuras que não são prioritárias para o Brasil”, ressaltou.
A economista também mencionou os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas, estabelecidos em 2015 no contexto da Agenda 2030, um compromisso global que abrange 17 objetivos e 169 metas.
Os ODS têm como prioridades a erradicação da pobreza, a diminuição das desigualdades sociais, a proteção ambiental e a promoção do bem-estar econômico. Apesar de serem universais, sua implementação deve levar em consideração as realidades locais. Campello destacou que parte do debate brasileiro sobre sustentabilidade ainda reflete prioridades definidas por economias centrais, sem levar em conta a singularidade do país:
“A transição energética é uma pauta eurocêntrica — embora seja essencial. No caso do Brasil, é necessário discutir todas as transições econômicas“, afirmou.
“Os debates sobre transição geralmente ficam restritos às questões relacionadas ao carbono. Precisamos reduzir as emissões até 2050, mas não podemos nos limitar ao carbono equivalente; isso nos impede de abordar a biodiversidade — um tema essencial para o Brasil.”
O país possui entre 15% e 20% da biodiversidade global, abrigando biomas como Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pantanal e Pampa.
“Queremos discutir créditos relacionados à biodiversidade, não apenas créditos de carbono. O diálogo deve ir além da agenda de descarbonização”, enfatizou.
Diferentemente dos créditos de carbono que visam compensar ou reduzir emissões de gases do efeito estufa, os créditos de biodiversidade têm como objetivo atribuir valor econômico à conservação e restauração dos ecossistemas, promovendo maior integridade ecológica e diversidade biológica.
A proposta já está sendo implementada nas ações recentes do BNDES sob a direção de Campello na área socioambiental. Segundo ela, o Brasil tem buscado desenvolver mecanismos financeiros para viabilizar uma “transição múltipla”, envolvendo metas ecológicas, produtivas, tecnológicas e sociais:
“O Brasil tem potencial para realizar a transição ecológica e já está se esforçando imensamente para encontrar fontes de recursos que possibilitem essa transição múltipla.”
Dentre os principais instrumentos disponíveis está o Fundo Clima, criado em 2009 dentro da Política Nacional sobre Mudança do Clima. Este fundo inicialmente era financiado principalmente por receitas especiais provenientes da exploração petrolífera e expandiu consideravelmente nos últimos anos devido à inclusão de novas fontes de capital, como as emissões de títulos verdes (os green bonds).
Dados do painel oficial do BNDES revelam que as aprovações do Fundo Clima dispararam significativamente: de aproximadamente R$ 1,1 bilhão em 2022 para R$ 12,5 bilhões em 2025.
Ainda até junho de 2026 cerca de R$ 5,5 bilhões já haviam sido aprovados com uma meta ambiciosa de ultrapassar os R$ 20 bilhões até o final do ano. Apenas no ano passado esse mecanismo ajudou a mobilizar R$ 34,6 bilhões tanto em recursos públicos quanto privados voltados para projetos relacionados à transformação ecológica.
“Enquanto isso”, observou Campello, “Japão e países membros da União Europeia anunciaram programas que somam US$ 1 trilhão para financiar suas transições industriais e energéticas.”
No escopo do Fundo Clima encontram-se financiamentos voltados desde adaptações urbanas às mudanças climáticas — como drenagem e infraestrutura resiliente — até modernizações industriais fundamentadas em bases renováveis.
Além disso, no âmbito da iniciativa BNDES Florestas — uma plataforma estratégica integrada por instrumentos financeiros voltados à restauração ecológica e conservação — “o Brasil deseja se tornar o maior produtor mundial de florestas nativas”, declarou Campello.
Dentre os programas oferecidos destaca-se o ProFloresta+, focado na restauração em larga escala da vegetação nativa voltada à recuperação de ecossistemas degradados.
“As iniciativas estratégicas vão além da mera redução do desmatamento; elas buscam reconstruir o meio ambiente.”, acrescentou.
No total, o BNDES já mobilizou R$ 14,1 bilhões para o setor florestal brasileiro. Desse montante, R$ 8,2 bilhões foram destinados a crédito direto e apoio imediato enquanto R$ 5,9 bilhões foram alocados por meio de participações e fundos diversos.
Esses investimentos equivalem ao plantio estimado de 342 milhões de árvores e à recuperação aproximada de 205 mil hectares além da geração prevista de cerca de 86 mil empregos verdes com uma captura estimada em torno de 66 milhões de toneladas de carbono.
“Hoje existe um conjunto significativo de empresários no Brasil que já estão tomando crédito para reconstituir florestas”, destacou Campello.
A partir das informações fornecidas pelo BNDES cada R$ 1 investido publicamente gera um retorno multiplicador na ordem de R$ 1,52 provenientes dos recursos privados alocados aos projetos restauradores.
A diretora argumenta que essa transformação deve também dialogar com os sistemas alimentares — outra questão muitas vezes esquecida nas discussões climáticas.
Sistemas agroalimentares têm uma contribuição significativa nas emissões globais dos gases com efeito estufa enquanto também são vulneráveis às secas extremas e à degradação dos solos devido às mudanças climáticas.
“A agenda relacionada aos combustíveis fósseis é crucial; entretanto há um grande potencial no Brasil voltado para promover tanto a biodiversidade quanto sistemas alimentares sustentáveis“, concluiu campello.
