Os recentes escândalos envolvendo o Banco Master, sob a liderança de Daniel Vorcaro, e a Operação Miragem que afeta o Digimais, vinculado a Edir Macedo, enfatizam os impactos negativos de um modelo de desregulamentação financeira que começou no governo de Michel Temer (MDB) e foi intensificado pelo então “super” ministro da Economia, Paulo Guedes, junto ao presidente do Banco Central “autônomo”, Roberto Campos Neto, durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL).
Apresentadas como uma “modernização” do sistema financeiro – uma terminologia que Flávio Bolsonaro agora utiliza para atrair investidores da Faria Lima –, as políticas implementadas por Guedes e Campos Neto facilitaram a criação de um ecossistema dominado por fintechs e bancos digitais. Atualmente, essas instituições estão no foco das investigações da Polícia Federal sob o governo Lula.
Por vários anos, Paulo Guedes e Roberto Campos Neto promoveram no mercado a ideia de que era necessário romper com um suposto oligopólio bancário para fomentar a concorrência, democratizar o acesso ao crédito e impulsionar inovações financeiras. Esse discurso resultou na criação de condições propícias para o surgimento explosivo de fintechs, plataformas de crédito e novos bancos que começaram a competir com instituições financeiras tradicionais.
No entanto, enquanto o ambiente da Faria Lima celebrava essa abertura do mercado, as autoridades responsáveis pela fiscalização pareciam incapazes de acompanhar o ritmo acelerado dessas mudanças.
Com as investigações que envolvem o Banco Master e o Digimais em andamento, surge uma indagação crucial: os possíveis crimes identificados pela Polícia Federal são apenas casos isolados ou indicam fragilidades intrínsecas a um modelo regulatório desenvolvido para facilitar a expansão do setor financeiro?
A análise dessa questão pode ser iniciada antes mesmo da posse de Bolsonaro no Palácio do Planalto.
A origem no governo Temer
A base da atual estrutura financeira remonta ao governo Michel Temer (MDB). Em abril de 2018, o Conselho Monetário Nacional implementou a Resolução 4.656, que estabeleceu as Sociedades de Crédito Direto (SCDs) e as Sociedades de Empréstimo entre Pessoas (SEPs).
À primeira vista, tal medida parecia ser uma ação técnica voltada à promoção da inovação. Contudo, na prática, ela representou uma mudança histórica significativa. Foi a primeira vez que empresas não bancárias puderam oferecer crédito diretamente ao consumidor sem necessidade de se converterem em bancos convencionais.
A medida foi celebrada com entusiasmo na Faria Lima. O raciocínio era claro: uma maior concorrência reduziria os juros e expandiria o acesso ao crédito.
Entretanto, essa resolução também deu início a um processo que fragmentou o sistema financeiro. Novos agentes passaram a operar em um ambiente regulatório muito mais flexível do que aquele exigido dos grandes bancos, enquanto o governo acreditava que uma supervisão baseada em riscos seria suficiente para monitorar essa expansão.
Bolsonaro: Financeirização como política pública
Em 2019, quando Roberto Campos Neto assumiu a direção do “autônomo” Banco Central, esse processo ganhou ainda mais impulso e transformou a financeirização em uma política estatal.
Diferentemente dos governos anteriores, que priorizavam a estabilidade financeira acima de tudo, Campos Neto adotou inovação e concorrência como objetivos centrais da autoridade monetária. Assim, o BC deixou sua função tradicional apenas como fiscalizador para também se tornar um agente promotor do crescimento do mercado financeiro.
Em 2020 foi introduzido o Sandbox Regulatório, um mecanismo que permitiu às empresas selecionadas testarem produtos e modelos comerciais sob regras diferenciadas de supervisão.
A iniciativa se inspirou em modelos internacionais e foi apresentada como uma ferramenta para modernizar o setor. Contudo, também significava uma mudança fundamental: passou-se a valorizar mais a experimentação e crescimento em detrimento da prevenção de riscos.
O passo seguinte foi ainda mais ousado. Em 2021 começou a funcionar o Open Banking, expandido posteriormente para Open Finance.
Esse sistema obrigou instituições financeiras a compartilhar informações sobre clientes, possibilitando uma integração entre bancos tradicionais, fintechs e plataformas tecnológicas. A Faria Lima novamente comemorou essa inovação.
Campos Neto celebrou junto com Guedes os avanços na “modernização” do mercado brasileiro. Entretanto, pouco se discutiu sobre os novos desafios regulatórios criados por um ecossistema financeiro cada vez mais complexo e interconectado.
A “terceirização” no mercado financeiro
Nesse cenário prosperou o modelo conhecido como Banking as a Service (BaaS). Empresas sem histórico bancário começaram a oferecer contas correntes, cartões e empréstimos utilizando as infraestruturas de instituições parceiras – numa espécie de “terceirização”, semelhante ao que ocorre em outros setores sob influência do ultraliberalismo.
A linha entre banco tradicional, fintechs e plataformas financeiras tornou-se cada vez mais nebulosa. Enquanto isso, o sistema crescia desproporcionalmente à capacidade fiscalizatória das autoridades competentes.
Simultaneamente, com a aprovação da Lei Complementar 182 – conhecida como Marco Legal das Startups – e da autonomia formal do Banco Central consolidou-se a percepção de que o avanço no mercado financeiro deveria ocorrer com mínima intervenção estatal.
Tais propostas estão alinhadas com as ideias defendidas por Paulo Guedes – um fervoroso defensor do neoliberalismo – promovido pela mídia liberal em 2018 como “o posto Ipiranga” de Jair Bolsonaro; visto quase como um oráculo econômico após os episódios envolvendo Lula e Sergio Moro.
O resultado disso foi criar um ambiente extremamente favorável à entrada de novos atores no setor financeiro e à movimentação intensa de recursos financeiros sofisticados cuja fiscalização ficou dificultada.
A brecha permitiu que Daniel Vorcaro e Edir Macedo se tornassem banqueiros reconhecidos; eles obtiveram autorização do BC sob Campos Neto para operar tanto o Master em 2019 quanto o Digimais em 2020.
A história do Banco Master
Nesse contexto conturbado é que se destaca o Banco Master como ícone da nova era financeira brasileira.
Sob liderança de Daniel Vorcaro, essa instituição experimentou um crescimento vertiginoso precisamente durante o período em que Roberto Campos Neto liderava iniciativas para abrir ainda mais esse setor.
O banco expandiu suas operações rapidamente no mercado financeiro tradicional construindo uma rede complexa composta por fundos variados e ativos financeiros cujo crescimento acelerado chamou atenção geral.
Atualmente, investigações realizadas pela PF analisam indícios envolvendo operações estruturadas suspeitas além da movimentação irregular dos ativos financeiros; créditos problemáticos para recuperação parecem ter sido utilizados para ocultar origens ilícitas ou disfarçar transações patrimoniais fraudulentas.
Relatórios elaborados pela inteligência financeira revelaram também possíveis conexões entre as estruturas investigadas na operação e recursos relacionados com facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC).
O aspecto mais alarmante desse caso não reside apenas na quantidade dos recursos sob investigação;
E sim no fato desse crescimento ter ocorrido dentro dos limites legais do sistema financeiro formal sob supervisão estatal num ambiente que celebrava justamente as capacidades dessas novas instituições frente aos grandes bancos tradicionais.
Digimais: Um novo capítulo
O Digimais surgiu agora como um novo desdobramento dessa narrativa complexa. Vinculado ao conglomerado empresarial liderado por Edir Macedo – responsável pelo controle do Republicanos – foi um dos apoiadores proeminentes durante o governo Bolsonaro; este banco digital cresceu paralelamente à onda expansiva das fintechs nos últimos anos.
No dia 23 deste mês ocorreu uma nova fase das investigações conduzidas pela PF sobre suspeitas relativas à fraudes no Sistema Financeiro Nacional; houve bloqueios autorizados totalizando até R$ 670 milhões relacionados aos investigados. O modo operandi é similar ao identificado nas atividades do Master através da emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com taxas superiores a 110% do CDI.
Dentre outros aspectos preocupantes está também envolvimento do banco presidido pelo bispo João Urbaneja – braço direito de Macedo – nos empréstimos consignados voltados aos servidores públicos militares paulistas incentivados pelo governo Tarcísio Gomes para contrair dívidas junto à instituição ligada à Igreja Universal; além disso promove cultos oferecendo “assistência espiritual” aos policiais militares locais.
Ainda nas fases iniciais das apurações já se evidencia mais uma entidade surgida nesse ambiente regulatório problemático ganhando relevância nas investigações; isso levanta questões sérias sobre eficácia dos modelos adotados entre os anos 2019-2024 .
Caminhos estruturados para ilícitos financeiros
Nesta análise não se trata apenas de responsabilizar Paulo Guedes ou Roberto Campos Neto pelas irregularidades apuradas pela Polícia Federal mas sim entender questões estruturais mais profundas envolvidas nesse contexto histórico recente.
Ainda sob sua liderança houve uma troca significativa no Brasil: abandonou-se um sistema bancário concentrado fortemente supervisionado dominado por poucos players visando criar agora um ecossistema pulverizado interligado onde prevalece lógica voltada à expansão acelerada sem necessariamente garantir mecanismos adequados controle eficazes sobre ele .
Pontos positivos versus riscos
- Crescimento: Defensores dessa abordagem destacam benefícios trazidos pela concorrência , inovação , inclusão financeira .
- Cuidado: Contudo , investigações recentes acerca Master Digimais levantam indagações pertinentes : será possível tanto aumento competição também trouxe vulnerabilidades permitindo operações difíceis monitorar ?
- Evidências : Casos menores como Clava Fort ligados pastor André Valadão reforçam percepção abertura promovida BC alcançou setores religiosos políticos empresariais gerando estruturas próprias dentro ambiente supervisionamento cada vez desafiador .
Ponto central
Analisando sob perspectiva histórica , questionamento emergente não diz respeito somente futuro indivíduos envolvidos direta ou indiretamente mas reflete preocupações maiores relacionadas próprio modelo modernização financeira idealizado desde era Temer sendo levado limite pelas ações Paulo Guedes Roberto Campos Neto .
Cenário futuro:
- Cenário potencial : Se confirmações feitas pelas autoridades se provarem verdadeiras , tanto Master quanto Digimais poderão ser lembrados não só escândalos financeiros mas também exemplos emblemáticos fragilidades arquiteturas regulatórias neoliberais concebidas acelerar expansão mercados ;
possibilitando assim acessibilidade organizações criminosas ambientes antes restritos supervisões rigorosas .
