Em 20 de setembro de 1899, Raniero Coccettini, o tataravô de Lionel Messi, chegou ao Porto de Santos, no litoral do estado de São Paulo, acompanhado de sua família. Eles vieram da Itália a bordo do navio Washington.
Ao chegar ao Brasil, o sobrenome da família passou por duas modificações em documentos oficiais, um fenômeno identificado pelo historiador italiano Fiorenzo Santini através de arquivos do Museu da Imigração do Estado de São Paulo.
Após aproximadamente seis anos vivendo no interior paulista, a família decidiu se mudar para Rosário, na Argentina, onde o sobrenome Cuccittini se firmou na linhagem que eventualmente levaria até a mãe do famoso jogador.
Raniero Coccettini era natural de San Severino Marche, na Itália. Ele chegou ao Brasil acompanhado pela esposa Rosa Ricchezza e seus filhos Giulia e Francesco.
Neste momento inicial no Brasil, a identidade familiar começou a ser alterada. Nos registros brasileiros, Raniero passou a ser chamado de Ramiero Concenttini, uma mudança que Santini observa como comum nos portos onde imigrantes desembarcavam.
O sobrenome original já havia sofrido uma primeira modificação durante o embarque em Gênova, quando foi registrado como Concettini. Ao chegar no Brasil, surgiu uma nova versão moldada pela pronúncia e escrita dos funcionários locais.
Vida no interior paulista e segunda alteração do nome
<pApós desembarcar em Santos, Raniero foi contratado para trabalhar como agricultor numa propriedade pertencente a Martinho Prado Júnior em Rincão. Prado Júnior era uma figura proeminente na cafeicultura brasileira e frequentemente recrutava imigrantes recém-chegados para suas fazendas devido aos seus interesses comerciais no Porto de Santos.
A família expandiu-se enquanto vivia no interior paulista: Ermínia nasceu em Ribeirão Preto em 1900 e Arderigo veio à luz na mesma cidade em 1904.
No registro do nascimento de Arderigo ocorreu a segunda alteração do sobrenome: ele foi inscrito como Federico Cuccittini, afastando-se ainda mais do nome Coccettini original. Esse novo sobrenome seria mantido pelas gerações seguintes e chegaria até a mãe de Lionel Messi.
Mudança para Argentina e linhagem de Messi
<pEm setembro de 1905, pouco mais de um ano após o nascimento de Arderigo, a família deixou o Brasil e dirigiu-se à região de Rosário na Argentina. Embora sua permanência no Brasil tenha sido breve, esse período foi suficiente para que o sobrenome da família fosse transformado permanentemente.
Na Argentina, nasceu Antonio Cuccittini, avô de Lionel Messi. Posteriormente, Celia María Cuccittini veio ao mundo como mãe do jogador. Em 24 de junho de 1987, Lionel Andrés Messi Cuccittini nasceu com um nome que reflete essa jornada através do Brasil antes de se estabelecer na Argentina.
O sobrenome que agora é amplamente reconhecido associado à mãe deste ícone do futebol teve sua forma finalizada em um registro civil realizado em Ribeirão Preto.
O contexto da imigração e as alterações de nomes
A experiência da família Coccettini não foi um caso isolado. Segundo Fiorenzo Santini, mudanças nos sobrenomes eram comuns durante o processo migratório. Os registros eram elaborados com base na pronúncia fornecida pelos recém-chegados aos escrivães locais; assim, as barreiras linguísticas resultavam em adaptações fonéticas que se tornavam oficiais.
“A alteração do sobrenome aconteceu porque os funcionários que recebiam os migrantes frequentemente escreviam conforme entendiam e não como realmente era o nome correto”, explicou Santini em uma entrevista. “Coccettini se transforma em Concettini ao embarcar em Gênova e Cuccittini ao chegar ao Brasil. Acredito que isso se deve à forma como Coccettini é pronunciado em português”, acrescentou.
A Associação dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil) confirma que esse fenômeno era rotineiro entre o final do século XIX e início do século XX. Muitos imigrantes chegavam sem documentos identificatórios adequados e os cartórios registravam com base apenas no que ouviam.
A consequência disso foi uma geração inteira cujos sobrenomes foram adaptados durante a travessia marítima, refletindo assim um processo involuntário que moldou as identidades de milhões de descendentes imigrantes no Brasil e na América do Sul.
