Durante anos, o estado do Rio de Janeiro foi administrado sob a ilusão de que a escassez era uma condição inevitável. Frequentemente se afirmava que não havia recursos financeiros suficientes para reajustar salários, valorizar os profissionais da educação, fortalecer hospitais, universidades e serviços públicos. A crise enfrentada no estado fluminense foi, na verdade, uma escolha política deliberada.
A Operação Sem Refino revela essa realidade de forma contundente: o estado endureceu sua postura em relação à população, enquanto se mostrou complacente com os grandes devedores.
A situação das contas públicas não se equilibrou conforme esperado.
Com um déficit orçamentário projetado em R$ 19 bilhões para 2026, o passivo atribuído a Ricardo Magro e ao grupo sendo investigado é estimado em cerca de R$ 26 bilhões. Isso significa que o montante deixado de arrecadar devido à conivência com os devedores supera o próprio desfalque nas finanças estaduais. Portanto, a falta de recursos não foi um acaso; a realidade é que não houve a determinação necessária para cobrar aqueles que deviam.
Essa análise é fundamental para compreender a administração do ex-governador Cláudio Castro.
Enquanto os grandes devedores receberam benesses, a população fluminense continuou desamparada. Apesar da ausência de restrições no regime de recuperação fiscal para repor as perdas salariais dos servidores – uma medida prevista na Constituição – o governo optou por ignorar essa questão.
A reposição salarial foi adiada indefinidamente, deixando os servidores à mercê da incerteza e mantendo o magistério em um estado de desvalorização. O orçamento público passou a ser um instrumento de contenção para as necessidades da população, enquanto interesses já estabelecidos permaneceram protegidos.
Além disso, a Operação Sem Refino destaca que essa situação não é um caso isolado. As investigações revelam fraudes fiscais, ocultação de bens, evasão de recursos e lavagem de dinheiro dentro do setor de combustíveis, utilizando holdings, offshores e complexos mecanismos financeiros.
No entanto, o problema se estende além dessas irregularidades: ao optar pelo Regime de Recuperação Fiscal, o estado deveria ter promovido uma revisão abrangente dos benefícios fiscais existentes, reduzindo isenções e aumentando a arrecadação. Na prática, prevaleceu a defesa dos interesses já consolidados, enquanto o bloqueio aproximado de R$ 52 bilhões em ativos expôs a extensão do esquema e a magnitude das perdas para as finanças públicas.
Esse cenário também serve como uma reflexão sobre o bolsonarismo no Rio. Embora se proclame ordem, eficiência e responsabilidade fiscal, na prática há uma gestão seletiva da desigualdade. O funcionalismo público e as instituições educacionais são tratados com rigidez enquanto os interesses econômicos que corroem a arrecadação são tolerados.
Nesse contexto, as restrições sempre recaem sobre os mesmos segmentos sociais.
A sonegação fiscal tem consequências devastadoras: quando faltam recursos nas escolas, hospitais e universidades ou quando os salários dos servidores são comprometidos. Cada bilhão perdido nos cofres públicos resulta em sucateamento e atraso nos serviços essenciais. Por isso, defender a cobrança dos grandes devedores é também defender a dignidade da vida pública.
A operação desmonta ainda a narrativa da extrema direita que associa crime apenas às favelas e à juventude periférica. O que se evidencia é que muitas vezes o crime se disfarça em trajes formais e opera por meio de estruturas societárias complexas quando encontra proteção política. O conceito de “colarinho branco” deixa de ser mero simbolismo para tornar-se um verdadeiro método operacional.
Nesse sentido, o Programa Nacional de Combate ao Crime Organizado proposto pelo governo Lula acerta ao focar nas raízes financeiras dessas organizações criminosas. A busca por inteligência patrimonial, cooperação institucional e rastreamento de ativos são ferramentas cruciais para enfrentar grupos que dependem mais da obscuridade do sistema do que da violência direta. O diálogo entre Lula e Trump sobre Ricardo Magro ressalta que esses crimes transcendem fronteiras e demandam uma resposta coordenada.
Em essência, a Operação Sem Refino força o Rio a confrontar sua própria realidade. O estado não entrou em colapso por falta de recursos; foi minado por um projeto político que priorizou grandes empresários em detrimento da classe trabalhadora. Cláudio Castro tentou promover a ideia de um estado sem alternativas viáveis, mas essa operação revelou que havia sim recursos disponíveis; faltou apenas prioridade política para direcioná-los corretamente.
Para que o Rio consiga vislumbrar um futuro melhor, será necessário começar pelo básico: cobrar dos grandes devedores, romper com práticas patrimoniais obscuras, revitalizar a arrecadação e redirecionar o orçamento público em benefício da maioria.
Esse processo já começou com as reformas significativas realizadas pelo governador interino Ricardo Couto, indicando uma tentativa genuína de reestruturação do estado.
Sem essas ações concretas, qualquer discurso sobre responsabilidade fiscal continuará sendo apenas uma fachada elegante encobrindo práticas clientelistas habituais.
*Este artigo não reflete necessariamente a opinião da Fórum
