O recente caso de estupro coletivo registrado em Copacabana no final de janeiro teve um desdobramento tenso e fora dos tribunais. O advogado Rodrigo Mondego, responsável pela defesa da vítima, uma adolescente de 17 anos, relatou publicamente ter sido alvo de ataques verbais e ofensas proferidas por José Carlos Simonin, pai de um dos jovens acusados pelo crime.
Simonin, que ocupava o cargo de subsecretário de Governança, Compliance e Gestão Administrativa na Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos do governo Cláudio Castro, enviou mensagens privadas ao advogado através do Instagram. Em uma das conversas compartilhadas por Mondego, o ex-servidor disparou: “Você também está querendo cinco minutos de fama. Vai trabalhar para pagar ‘às’ suas contas, vagabundo”.
Reação e implicações jurídicas
A reação de Mondego foi imediata. O advogado rebateu a ofensa reafirmando seu papel institucional e o suporte à vítima: “Vagabundo não sou, sou sim advogado e trabalho bastante. Inclusive, para que o vagabundo do seu filho continue enjaulado. Cada um ocupa o lugar que escolheu, eu ao lado da vítima e o senhor, passando a mão na cabeça de estuprador”.
O defensor está considerando entrar com uma representação formal contra o ex-subsecretário. De acordo com Mondego, a conduta pode configurar o crime previsto no Artigo 344 do Código Penal, que trata da coação no curso do processo, ou seja, o uso de violência ou grave ameaça contra autoridade ou parte envolvida em processo judicial para favorecer interesses próprios ou alheios.
O crime e a investigação
Os ataques verbais acontecem em um momento crucial do inquérito realizado pela 12ª DP (Copacabana). A investigação, que já foi concluída, resultou no indiciamento de quatro jovens por estupro qualificado: Bruno Felipe dos Santos Allegretti, Vitor Hugo Oliveira Simonin, Mattheus Veríssimo Zoel Martins e João Gabriel Xavier Bertho.
Relatórios policiais baseados em câmeras de segurança do prédio mostram uma movimentação suspeita no corredor do sexto andar no dia do crime. As imagens registram a chegada da vítima acompanhada por um menor e, mais tarde, a saída da jovem do imóvel. O que mais chocou os investigadores foi a filmagem de um dos envolvidos voltando ao corredor após a saída da adolescente, fazendo gestos descritos pela polícia como “comemoração” e saindo do local com um sorriso.
Exoneração no governo do Rio
A pressão relacionada ao caso teve impacto direto na estrutura do governo estadual. No dia 3 deste mês, José Carlos Simonin foi exonerado de seu cargo. A solicitação de afastamento partiu da própria secretária de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos, Rosangela Gomes, e foi encaminhada à Casa Civil.
A saída de Simonin do governo ocorre em uma pasta que, de forma irônica, deveria zelar pelo “Compliance” e pela proteção dos “Direitos Humanos”, resultando em um desgaste político para a gestão Cláudio Castro diante da gravidade das acusações envolvendo o filho do agora ex-servidor.
