Na última segunda-feira (22), um vídeo que mostra a intimidação da diretora da Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Antônio Bento, localizada no Caxingui, zona oeste de São Paulo, por quatro policiais militares se tornou viral. O incidente ocorreu em decorrência de uma atividade educacional relacionada à cultura afro-brasileira.
Os eventos começaram em 11 de novembro de 2025, quando um pai evangélico, identificado por moradores como sargento da Polícia Militar, foi buscar sua filha de 4 anos na Emei e encontrou um desenho que ela fez sobre a orixá Iansã, parte de uma tarefa escolar inspirada em um livro sobre cultura afro-brasileira. Conforme o boletim de ocorrência registrado pela diretora Aline Aparecida Floriano Nogueira, o homem retornou à escola sem aviso prévio e confrontou a professora com agressividade, dizendo: “Tem coisas que eu não gosto, vocês estão incluindo umbanda na vida da minha filha. Eu não aceito.”
De acordo com o relato da diretora no boletim, o pai destruiu o mural da atividade e rasgou o desenho da própria filha na presença de crianças e funcionários. A diretora tentou explicar que a atividade não tinha relação com ensino religioso, mas sim cumpria a Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino sobre a história e cultura afro-brasileira nas escolas. Ela sugeriu que ele formalizasse sua reclamação por escrito e convidou-o para uma reunião do conselho escolar marcada para o dia seguinte.
No entanto, o pai não compareceu à reunião programada. Em vez disso, no dia seguinte, quarta-feira (12), quatro policiais militares foram à Emei Antônio Bento, sendo que um deles estava armado com uma metralhadora. Testemunhas entre professores e pais relataram que os policiais entraram armados na escola alegando ter recebido uma denúncia sobre a suposta imposição de “aula de religião africana” às crianças.
Intimidação pela força policial
A diretora tentou esclarecer aos policiais que a atividade não era religiosa, mas sim uma abordagem cultural sobre as tradições africanas. Um dos oficiais reagiu de maneira hostil e fez ameaças à educadora enquanto insistia que ela estava “alterada”:
“A senhora está alterada, a senhora está nervosa […] Eu estou expondo uma coisa e a senhora quer impor isso; tudo bem. Vou orientar seu [pai da aluna] a tomar todas as medidas cabíveis porque a senhora não […] nunca me deixou terminar o que eu estava falando. Em momento algum você me deixou concluir. Cortou todos os meus pensamentos; já expus a lei que estou mencionando e ele tem esse direito […] A senhora não consegue me ouvir; você interrompe o tempo todo […] Só quis impor suas regras e ditar seu pensamento [e] ideologia […] Voltarei aqui com uma medida administrativa.”
Investigação das autoridades
A Polícia Civil de São Paulo indiciou o pai da aluna por intolerância religiosa após ele acionar os policiais em resposta à participação da filha em atividades educativas sobre orixás, figuras centrais na tradição iorubá. Esse episódio teve lugar na Emei Antônio Bento em novembro de 2025 e foi investigado pelo 34º Distrito Policial da Vila Sônia, na zona sul da cidade. O inquérito foi finalizado e encaminhado ao Judiciário em fevereiro.
A conduta dos policiais militares envolvidos no caso está sob investigação pela própria corporação através de um Inquérito Policial Militar (IPM), atualmente em fase de análise. A Secretaria da Segurança Pública do estado destacou que estão sendo examinadas as gravações das câmeras corporais dos agentes além de coletadas declarações das partes envolvidas. Em comunicado oficial, o Ministério da Igualdade Racial reiterou que as atividades relacionadas aos orixás estão em conformidade com as leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008, que estabelecem o ensino obrigatório sobre história e cultura africana, afro-brasileira e indígena nas instituições educativas.
Entenda melhor o ocorrido
A proposta educativa consistia em ouvir a leitura do livro infantil “Ciranda de Aruanda”, premiado por abordar elementos da mitologia afro-brasileira de maneira lúdica. Após essa leitura, cada aluno deveria criar um desenho inspirado pela narrativa apresentada. Essa iniciativa fazia parte do currículo antirracista obrigatório nas escolas municipais e visava celebrar o Dia da Consciência Negra em 20 de novembro.
O que deveria ser apenas mais uma atividade pedagógica tornou-se um episódio marcado por tensão e debate nacional acerca de intolerância religiosa, racismo, laicidade do Estado e abuso policial.
No dia 11 de novembro (terça-feira), enquanto buscava sua filha na escola, o pai observou o desenho feito pela criança sobre Iansã — uma das personagens do livro — retornando sozinho logo depois para confrontar os educadores com ameaças verbais. Como descrito anteriormente no boletim registrado pela diretora Aline Aparecida Floriano Nogueira, ele destruiu tanto o mural quanto o trabalho artístico feito pela filha.
A diretora interveio explicando ao pai que as atividades estavam dentro das normas legais para educação cultural obrigatória — conforme estipulado pela Lei 10.639/03 — solicitando também que ele apresentasse suas preocupações formalmente por escrito antes do encontro agendado.
No entanto, apesar do convite para discussão no dia seguinte não ter sido atendido pelo pai, quatro policiais militares compareceram à escola armados até os dentes — incluindo um deles portando uma metralhadora — alegando terem recebido denúncias sobre uma suposta imposição ilegal aos alunos para aulas religiosas africanas.
A diretora relatou ter sido coagida durante aproximadamente 20 minutos pelos policiais armados enquanto tentavam pressionar educadores mesmo após várias tentativas dela para esclarecer os fatos. Ela ainda enviou mensagens para representantes comunitários afirmando que os agentes permaneceram no local por mais de uma hora repetindo acusações infundadas.
Para tentar amenizar a situação tensa gerada pelos policiais armados dentro da escola, a direção acionou a Delegacia de Ensino local e também convocou apoio da Guarda Civil Metropolitana (GCM). Somente após a chegada dessa assistência é que os policiais deixaram as instalações escolares conversando com o pai lá fora antes de se retirarem completamente.
O Sindicato dos Profissionais em Educação do Ensino Municipal (Sinpeem) divulgou uma nota manifestando repúdio à situação ocorrida na escola. Na declaração consta que a diretora chegou a passar mal durante os incidentes necessitando auxílio dos demais funcionários presentes devido ao estresse emocional causado pela abordagem policial violenta. O sindicato ainda mencionou casos claros de constrangimento e intimidação enfrentados naquele dia como um ataque direto à autonomia pedagógica da instituição além do comprometimento da segurança emocional tanto dos alunos quanto dos profissionais envolvidos.
