A doce sensação da vitória não deve ofuscar uma realidade perturbadora no Brasil contemporâneo. Uma certa fantasia distópica pode lançar luz sobre essa situação.
Considerem o cenário dos Estados Unidos durante a eleição presidencial de 8 de novembro de 1932. O país estava em ruínas devido à Grande Depressão, com um índice de desemprego que alcançava 50%, enquanto as famílias lutavam pela sobrevivência.
Neste contexto de severa crise social, o governador de Nova Iorque se lança como candidato do Partido Democrata, prometendo uma intervenção governamental na economia e proteção aos trabalhadores. Seu nome? Franklin D. Roosevelt.
No campo oposto, seu rival é um gangster oriundo de Chicago que se apresenta como um candidato “antissistema”, apesar de ter se enriquecido por meio de práticas ilícitas dentro do próprio sistema. Ele é conhecido como Al Capone.
Essa comparação histórica é essencial. Lula participou da sua sétima disputa eleitoral (a quinta em segundo turno) contra um Al Capone.
Além disso, Lula enfrentou um adversário que ostentava ideais semelhantes aos de Adolf Hitler.
Na história real, temos conhecimento sobre quem foi Al Capone e as atrocidades cometidas por Adolf Hitler, responsável pelo genocídio de milhões considerados “indesejados”. Sabemos também que o pai do opositor de Lula permitiu, no mínimo, a ocorrência desse genocídio. A partir desse conhecimento, podemos imaginar o destino trágico que negros, pobres, mulheres, LGBTs, indígenas e praticantes das religiões afro-brasileiras poderiam enfrentar caso o derrotado nas urnas no último domingo assumisse o cargo em 5 de janeiro.
Ademais, Hitler tornou-se chefe do governo alemão apenas 33 dias antes do início do primeiro mandato de F. D. Roosevelt. Contudo, a derrota do regime nazista exigiu 12 anos e custou a vida de cerca de 70 milhões de pessoas.
Na segunda-feira seguinte à eleição, o Brasil não despertou sob um regime distópico dirigido por uma figura corrupta e autoritária, em grande parte devido a uma diferença superior a 4,4 milhões de votos. No entanto, a ameaça de uma tragédia humana sem precedentes era palpável. Os verdadeiros responsáveis por essa situação não foram apenas as massas desinformadas (a maioria que votou no “2”) ou a pequena fração perversa (que poderia ser vista como minoria) que fez essa escolha.
Diversos setores sociais desempenharam papéis cruciais como facilitadores da competitividade do Capone-Hitler nas eleições de 2026. É fundamental destacar pelo menos três grupos responsáveis por isso.
O primeiro grupo inclui os detentores do capital concentrado. Na lista dos dez indivíduos mais ricos do mundo – cuja fortuna equivale à renda da metade da população global – os primeiros colocados (Musk e Zuckerberg) atuaram contra Lula durante as eleições, o que apenas ressalta o sucesso do maior presidente da história brasileira. Entre os ricos nacionais, figuras como André Esteves (sócio de Paulo Guedes no BTG Pactual), Milton Maluhy Filho (Itaú-Unibanco) e Paulo Skaf (Fiesp) também apoiaram o criminoso fascista, contribuindo com quantias significativas entre o primeiro e o segundo turnos através de doações legalizadas.
O segundo grupo é especialmente insidioso devido à sua educação e ao papel institucional que ocupa. Trata-se dos integrantes do Judiciário que deveriam zelar pelo Estado Democrático de Direito e que traíram seus deveres profissionais ao permitir a invasão fascista ao flexibilizar suas responsabilidades.
Os nomes associados a essas ações incluem Luiz Fux (um defensor fervoroso de um Golpe de Estado em um voto absurdamente longo), André Mendonça (que implicitamente expressou apoio ao governo Capone-Hitler ao votar) e Kassio Nunes Marques (conhecido por seu envolvimento com refugiadas ucranianas). Não podemos chamar esses indivíduos simplesmente de magistrados; seria mais apropriado comparar suas ações às dos juízes que serviram a Hitler.
Por fim, devemos criticar os “falsos mensageiros”, aqueles que representam as grandes empresas tecnológicas e profissionais da mídia hegemônica que se alinharam descaradamente com Capone-Hitler e celebraram efusivamente os resultados do primeiro turno enquanto desqualificavam Lula com ironias disfarçadas.
Não subestime a gravidade dessas ações. Cada ator político mencionado acima e muitos outros que apoiaram Flávio Bolsonaro (como Caiado, Zema e Cury) ficariam satisfeitos em ver você sendo levado para a câmara de gás.
Para concluir esta reflexão sobre uma história real ignorada por esses três grupos: Roosevelt venceu sua primeira das quatro eleições garantindo 22,8 milhões de votos em uma população total estimada em 124,8 milhões na época.
Lula, já em sua quarta vitória eleitoral, se consagra como o maior líder da história brasileira ao reunir 64,2 milhões de manifestações populares favoráveis à sua candidatura.
*Este artigo não reflete necessariamente a opinião da Revista Fórum.
