Lula afirmou: “Nunca me considerei esquerdista. Minha trajetória é marcada por uma forte ligação com o sindicalismo da Alemanha, boas relações com o movimento sindical italiano e um bom convívio com a UGT [União Geral dos Trabalhadores] da Espanha”, durante uma conversa que teve com a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, e o chanceler alemão, Friedrich Merz, no encontro do G7 realizado na França.
Ao se descrever, o presidente fez uma breve reflexão sobre sua história pessoal, lançando uma crítica sutil àqueles que utilizam o termo “esquerdista” de maneira depreciativa. Ao afirmar que não se considera “esquerdista”, Lula não se distancia dos princípios defendidos pela esquerda ao longo da história, mas sim de dogmas que se tornaram obsoletos ao longo do tempo. Essa interpretação de suas palavras é muitas vezes distorcida por veículos de comunicação que atuam de forma mal-intencionada.
No contexto atual, a compreensão das definições de esquerda e direita deve levar em conta os princípios marxistas, mas sem aplicá-los de forma literal nos dias atuais. É inegável que a divisão entre esquerda e direita ainda se apresenta com clareza. O conceito de “igualdade” permanece como um ponto central nessa dualidade política.
Norberto Bobbio, renomado filósofo italiano que foi respeitado tanto pela esquerda quanto pela direita moderada e criticado pelos extremos dos dois lados, destacou em sua obra “Esquerda e Direita: Razões e Significados de Uma Distinção Política”, publicada em 1994, que as distinções entre esses dois espectros ainda são evidentes. Para ele, as diferenças são claras e continuam a existir no cenário político contemporâneo.
Bobbio discorreu sobre a natureza das alianças no âmbito internacional e nas interações entre partidos políticos, ressaltando que certas combinações podem parecer inusitadas à primeira vista, mas são resultado da lógica dicotômica inerente às relações humanas. Ele menciona que exemplos mais extremos dessa antítese podem ser encontrados na guerra; porém, essa lógica também permeia visões tradicionais e até metafísicas do mundo natural.
<pAo declarar que “nunca foi esquerdista”, Lula incita os ouvintes a refletirem sobre a lógica dicotômica abordada por Bobbio. A visão dualista persiste enquanto existirem conflitos sociais. Segundo Bobbio, mesmo com as transformações temporais e circunstanciais, as oposições ainda podem mudar de importância ao longo do tempo.
<pAtualmente, o aspecto central que diferencia os posicionamentos políticos em relação ao conceito de esquerda ou direita reside na abordagem das desigualdades. Bobbio observa: “As desigualdades naturais existem; embora algumas possam ser corrigidas, muitas não podem ser eliminadas. As desigualdades sociais também estão presentes; algumas podem ser ajustadas ou eliminadas, enquanto outras – especialmente aquelas pelas quais as pessoas têm responsabilidade – podem apenas ser desencorajadas.” Ele ressalta a importância de reconhecer as diferentes origens das desigualdades sociais em contraste com as naturais.
<pEssa é a essência da proposta política defendida por Luiz Inácio Lula da Silva: muitas das desigualdades que geram indignação têm origem social e podem ser combatidas. Apesar de se afastar do estigma associado ao termo “esquerdismo”, Lula representa uma visão radicalmente contrária àquela defendida por indivíduos situados à direita do espectro político, que tendem a ver as desigualdades como algo exclusivamente natural e irremediável.
As políticas públicas implementadas durante os mandatos de Lula são suficientes para posicioná-lo indiscutivelmente na esfera da esquerda ideológica. A expansão do acesso à saúde, educação e oportunidades laborais – sempre respaldada pelos direitos constitucionais – junto a um sistema tributário equilibrado (como a isenção do Imposto de Renda para rendimentos até 5 mil reais) e programas assistenciais abrangentes como o Bolsa Família têm contribuído para reduzir as disparidades entre cidadãos menos favorecidos e aqueles nascidos em condições privilegiadas. Isso é característico de políticas “esquerdistas”.
