O promotor de Justiça Lincoln Gakiya e o empresário Antonio Vinicius Gritzbach, assassinado em 2024 no Aeroporto de Guarulhos, forneceram depoimentos que levantam suspeitas sobre a possível colaboração de policiais militares da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Promotor denuncia vazamentos nas operações do Gaeco
Lincoln Gakiya, membro do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo, prestou seu testemunho à Corregedoria da PM em março deste ano. Durante seu depoimento, ele relatou casos de divulgação indevida de informações sigilosas durante ações que contaram com a participação da Rota.
A Operação Sharks, que foi iniciada em 2020, resultou em evidências de que informações sobre a operação foram entregues à liderança do PCC. Na ocasião, Marcos Roberto de Almeida, conhecido como Tuta e descrito como o “número 01” da facção fora dos presídios naquela época, conseguiu escapar do local onde um mandado judicial seria cumprido, mesmo sob monitoramento. Outros alvos importantes também conseguiram fugir.
Gakiya observou que, ao longo de seus mais de 35 anos na profissão e desde 2006 atuando em colaboração com a Rota, nunca havia encontrado anteriormente indícios que ligassem membros dessa unidade ao grupo criminoso.
No decorrer das investigações, a equipe de inteligência do MP descobriu que uma reunião entre o promotor e representantes da Rota com um informante foi gravada sem autorização. O material teria sido vendido por R$ 5 milhões a Tuta.
O promotor relatou ter comunicado tais ocorrências ao então comandante da Rota, tenente-coronel José Augusto Coutinho, e fornecido gravações das denúncias para que fossem tomadas as providências necessárias. Contudo, segundo um ofício do Ministério Público Militar, não há registros indicando que Coutinho tenha iniciado qualquer procedimento corretivo ou investigativo com base nas informações apresentadas. A Promotoria Militar considera que essa conduta pode ser interpretada como prevaricação segundo o Código Penal Militar.
Delator assassinado menciona PMs como seguranças do PCC
O empresário Antonio Vinicius Gritzbach, conhecido na mídia como “delator do PCC”, também fez referências à atuação de policiais da Rota durante seu acordo de colaboração premiada. Gritzbach foi assassinado a tiros em novembro de 2024 no Aeroporto Internacional de São Paulo, localizado em Guarulhos.
No seu relato, o delator afirmou que PMs da Rota ofereciam serviços de segurança para líderes proeminentes do PCC. Entre os nomes mencionados estavam Anselmo Becheli Santa Fausta (Cara Preta), Claudio Marcos de Almeida (Django), Silvio Luiz Ferreira (Cebola) e o advogado Ahmed Hassan Saleh (Mude).
A informação foi confirmada por meio das investigações da Operação Fim de Linha, cujo foco é a lavagem de dinheiro e organização criminosa relacionada a empresas de transporte público em São Paulo.
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Posicionamentos dos envolvidos
A defesa do tenente-coronel José Augusto Coutinho, representada pelo escritório Fernando José da Costa Advogados, afirmou não ter acesso aos documentos do inquérito e ressaltou que “a simples menção em um processo investigativo não implica automaticamente qualquer responsabilidade”. A nota ainda esclareceu que Coutinho “nunca enfrentou processos ou investigações por irregularidades” ao longo dos seus 34 anos na instituição.
A Polícia Militar declarou em uma nota oficial que não se manifesta sobre investigações em andamento conduzidas pela Corregedoria, citando a necessidade de manter o sigilo legal dos procedimentos relacionados à Polícia Judiciária Militar. A corporação enfatizou que “as apurações são realizadas com rigor técnico, observância ao devido processo legal e respeito às garantias individuais”.
