A seleção de 70 permanece viva nas memórias daqueles que tiveram a oportunidade de assisti-la e nos anseios dos que não puderam desfrutar desse momento. Reconhecida como a maior equipe de todos os tempos, sua imagem resplandece no imaginário coletivo como um símbolo da perfeição. As novas gerações que desejam entender aquele período encontrarão muitas respostas na minissérie da Netflix, que retrata com fidelidade os gols — incluindo aqueles que não foram convertidos — e mostra o contexto de uma Ditadura em pleno funcionamento, marcada por violência e repressão. Embora possam se emocionar, muitos terão uma compreensão distorcida dos papéis de Pelé e João Saldanha, figuras centrais dessa narrativa.
Dirigida por Paulo Morelli, Pedro Morelli e Quico Meirelles, a minissérie é uma verdadeira celebração do futebol. Mesmo sem conhecê-los pessoalmente, é evidente o amor que esses cineastas têm pelo esporte. A recriação do ambiente da época é impecável. O ator Lucas Agrícola se destaca pela impressionante semelhança física com Pelé, superando até mesmo a aparência de Zoca, irmão do craque. Os demais atores que interpretam os jogadores também apresentam algumas semelhanças, embora em menor grau.
Bruno Mazzeo brilha em sua interpretação como Zagallo, mas Rodrigo Santoro se sobressai com uma caracterização excepcional de João Saldanha, que na época tinha 53 anos. Sua representação captura fielmente o rosto, os gestos e o jeito de falar do personagem.
Um dos pontos altos da produção é a recriação dos gols. Para os céticos, a prova está nos créditos após o quinto e último episódio, onde as gravações originais podem ser comparadas. O célebre gol contra a Itália — resultado final de 4 a 1 na final — é apresentado na íntegra e considerado como um dos mais belos gols coletivos da história das Copas. Tostão inicia a jogada ao marcar e passa para Gérson, que toca para Clodoaldo; ele dribla quatro adversários antes de passar para Rivellino, que lança Jairzinho. A sequência culmina com Pelé deixando a bola para Carlos Alberto finalizar.
A reprodução do gol contra a Inglaterra também foi realizada com grande precisão. Nela, Tostão dribla pela esquerda, evita um choque e cruza para Pelé, que faz um toque sutil para Jairzinho. Os passes precisos de Gérson para Pelé e Jairzinho e a defesa de Gordon Banks em uma cabeçada de Pelé estão todos incluídos.
Até mesmo as tentativas frustradas de Pelé foram recriadas com atenção aos detalhes. A tentativa dele de encobrir Ivo Viktor da Tchecoslováquia a partir do meio-campo e o famoso drible em Mazurkiewicz do Uruguai são retratados com maestria. O narrador Eusébio Teixeira é interpretado por Marcelo Adnet, que reproduz à perfeição a famosa frase sobre o drible: “a bola tirou tinta do poste”.
Uma das cenas mais impactantes é quando Pelé marca de cabeça na final contra Albertosi; a câmera foca em suas chuteiras subindo até desaparecer da tela antes de retornar à visão geral do gol — uma referência visual ao clássico “2001: Uma Odisseia no Espaço”.
Embora todos esses elementos sejam excelentes, a produção não se limita apenas ao documentário; há uma parte ficcional onde ocorrem deslizes significativos.
No início da minissérie, Saldanha busca convencer Pelé a voltar aos Mundiais após lesões nas Copas de 1962 e 1966. Para persuadi-lo, ele menciona uma seleção ideal com cinco camisas dez — uma metáfora ao falar sobre Jairzinho como driblador e Gérson como lançador. Contudo, isso representa um erro crasso: Saldanha nunca defendeu essa formação. Na verdade, sua seleção das Eliminatórias contava com Edu na ponta-esquerda em um esquema 4-2-4 clássico já obsoleto desde que Vicente Feola adotou o 4-3-3 em 1958 ao incluir Zagallo no meio-campo.
Mas quem realmente foi João Saldanha? Um indivíduo explosivo capaz de agredir um jornalista uruguaio na cabine ou alguém que ameaçou atirar no goleiro Manga—algo nunca confirmado? Também há o retrato dele deixando o sorteio dos grupos para se reunir com jornalistas estrangeiros e entregar dossiês sobre torturas políticas no Brasil. Embora tenha denunciado as atrocidades da época, dificilmente faria isso diante dos olhares atentos durante um evento tão importante.
Outros erros comprometem ainda mais a imagem de Saldanha; ele jamais pediria publicamente a substituição do goleiro Félix durante um treino diante dos repórteres — algo impensável para alguém tão influente na mídia esportiva brasileira.
A cena onde ele dá uma entrevista exclusiva abordando as dificuldades sociais do Brasil também parece incoerente quando depois destrói as fitas ao perceber alguém invadindo sua casa — não combina com sua personalidade destemida.
A dramatização do jogo contra o Uruguai é exagerada; figuras como Pelé e Félix são mostrados aterrorizados pelo fantasma do Maracanazo. Félix imagina fantasmas nos treinos enquanto Zagallo sai à procura de cola para consertar seu amuleto — situações caricatas que destoam da realidade.
E quanto a Pelé? A tentativa de moldá-lo como um Herói trágico falha; ele aparece como alguém desprovido de personalidade forte ou liderança clara. Ao contrário disso, vemos um jovem atormentado por traumas passados: recordações dolorosas associadas à Copa de 50 e lembranças das violências sofridas anteriormente pelos portugueses marcam sua trajetória.
No dia anterior à final, ele pede ajuda a Saldanha para deixar o grupo escondido em seu carro apenas para rezar seguindo o conselho materno — uma cena que reforça sua vulnerabilidade.
A transformação interna de Pelé só se manifesta quando ele se reconcilia com Caju ao afirmar que seu exemplo sempre foi dentro das quatro linhas. No entanto, suas incertezas persistem até o fim da competição; não há momentos emblemáticos onde ele assume controle ou liderança clara sobre seus companheiros—por que Carlos Alberto não ocupa um espaço maior nessa narrativa?
A minissérie é uma excelente introdução à história da seleção campeã de 70; contudo, aqueles que buscam aprofundar-se no tema precisarão recorrer a outras fontes complementares como a biografia de Saldanha.
