André Mendonça foi apresentado ao Brasil como o ministro “terrivelmente evangélico” prometido por Jair Bolsonaro para o Supremo Tribunal Federal. Essa expressão não apenas refletia sua indicação como uma questão jurídica, mas também revelava um forte componente político e religioso, tornando-se um símbolo de sua ascensão. Curiosamente, a imagem que melhor encapsula aquele momento não se encontra em uma sessão no Senado ou em um documento oficial, mas sim em uma celebração.
Na ocasião da aprovação de Mendonça para o STF, Michelle Bolsonaro festejou como se tivesse acabado de celebrar uma vitória eleitoral. A dança e os abraços ao novo ministro foram uma demonstração clara de alegria incomum para alguém que deveria, a partir desse momento, assumir uma posição imparcial e afastar-se dos interesses políticos que o apoiaram.
Aquela cena pode não ter fornecido provas definitivas sobre o futuro, mas elucidava as expectativas do bolsonarismo em relação ao novo integrante do Supremo. Passados cinco anos, é pertinente questionar: a comemoração era pela nomeação de um novo ministro ou pela conquista de uma vaga na Corte?
É importante ressaltar que não há qualquer problema relacionado à fé evangélica de Mendonça. A crença de um magistrado pertence à sua vida pessoal e nunca deveria ser utilizada como critério para julgamentos. O desafio surge quando a religião se transforma em identidade política e lealdade a grupos específicos, servindo como justificativa para aqueles que o colocaram no poder. Um ministro do STF deve ter como única lealdade a Constituição.
Entretanto, Mendonça frequentemente passa a impressão contrária. Desde sua atuação no governo Bolsonaro, ele demonstrou disposição para usar as ferramentas do Estado em defesa dos interesses do então presidente. Como ministro da Justiça, chegou a apresentar habeas corpus em favor de Abraham Weintraub no STF, ato que gerou críticas pela clara confusão entre suas funções institucionais e sua defesa política.
No atual cenário do Supremo, sua postura parece ter alterado de forma significativa. Ao invés de trabalhar para fortalecer a autoridade institucional da Corte, Mendonça parece disposto a explorar suas vulnerabilidades. Em um recente conflito com Alexandre de Moraes, tomou a dianteira ao decidir sobre medidas relacionadas ao caso Master e ao revogar o sigilo de um relatório da Polícia Federal que continha mensagens entre Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro. Hoje, terça-feira (08), ele tomou uma decisão unipessoal ao afastar o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
Mendonça iniciou sua trajetória no Supremo sendo visto como um homem devoto. Mas qual Deus justifica essa seletividade? Que tipo de cristianismo exige rigor contra adversários enquanto é complacente com aliados? Que evangelho valoriza virtudes quando favorece um Bolsonaro e vê perseguição quando afeta seu próprio grupo político? Por que o pastor presbiteriano elevado à posição ministerial defende Flávio Bolsonaro com tanta veemência?
Diante da intensa disputa interna dentro da Corte, surge a indagação inevitável: será que Mendonça busca corrigir falhas do STF ou está tentando desestabilizar a instituição por dentro? Essa questão não é absurda; não é necessário aderir a teorias conspiratórias para perceber esse paradoxo. Durante anos, Bolsonaro atacou o STF publicamente, criticando ministros e incitando seus apoiadores contra a Corte, buscando transformá-la em seu opositor político. Agora, um ministro escolhido por ele se encontra no epicentro de um conflito que pode agravar ainda mais a crise de autoridade do Supremo.
Há uma ironia histórica difícil de ignorar: o homem designado por Bolsonaro ao STF em nome de uma promessa religiosa pode ser lembrado menos por sua fé e mais pela crise institucional que ajudou a intensificar. A verdadeira prova da fé cristã no poder não está em proteger amigos; trata-se da coragem necessária para enfrentá-los quando necessário.
Jesus nunca ensinou lealdade a grupos políticos nem sugeriu que os poderosos merecem tratamentos diferenciados na justiça. Também não nos ensinou que a verdade depende das circunstâncias do réu. Assim sendo, talvez a pergunta mais perturbadora não seja se André Mendonça é “terrivelmente evangélico”, mas sim se ele possui a ética republicana necessária para ser parte do Supremo.
A crença pessoal de Mendonça é uma questão dele; já suas ações enquanto ministro são preocupações coletivas. A dança comemorativa de Michelle Bolsonaro naquele dia parecia muito mais do que uma simples celebração. Hoje, com um olhar retrospectivo, esse evento ganha novos significados — não porque seja uma evidência conclusiva, mas porque simboliza algo que deveria causar inquietação em qualquer defensor da democracia: a noção de que um membro do STF poderia ser visto como propriedade de um projeto político.
Um ministro não deve pertencer àqueles que o indicaram ou ao presidente responsável por sua nomeação. Ele não deve ser visto como parte da família celebrante ou representar interesses evangélicos ou políticos específicos — seja à esquerda ou à direita. Sua única obrigação deve ser com a Constituição.
Atualmente, André Mendonça representa uma vergonha para o Brasil, para o sistema judicial e para os princípios fundamentais do Evangelho Cristo — aqueles que promovem equidade e dignidade humana e defendem os direitos dos mais vulneráveis e dos que buscam justiça.
No final das contas, como sempre afirmo: quem se apresenta como “terrivelmente evangélico” acaba revelando-se apenas terrível.
* Zé Barbosa Jr é teólogo, pastor, licenciado em história e pós-graduado em Ciências Políticas
** Este artigo não reflete necessariamente a opinião da Revista Fórum
