O Brasil se destaca globalmente pela sua matriz energética, considerada uma das mais renováveis do planeta. Aproximadamente 45% a 50% da energia gerada no país provém de fontes renováveis, enquanto a média mundial gira em torno de 15%. Nesse contexto, o país pode assumir um papel relevante na produção de hidrogênio verde (H2V), um recurso obtido por meio da eletrólise, que não emite gases poluentes e é abundante e versátil.
Uma pesquisa publicada no International Journal of Hydrogen Energy, realizada por cientistas do Centro de Pesquisa para Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI) da Universidade de São Paulo (USP) e financiada por instituições como a FAPESP, Shell Brasil e a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), analisa minuciosamente milhares de municípios brasileiros para identificar as áreas estratégicas para a produção e consumo do H2V.
O hidrogênio é crucial para a indústria siderúrgica e processos de refino de petróleo, podendo substituir combustíveis fósseis em operações que demandam altas temperaturas e sendo um insumo químico para diversas reações. Sua ampla aplicação o torna um componente vital quando combinado com outras tecnologias energéticas.
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Na investigação liderada pela USP, foi utilizada uma metodologia baseada na análise espacial junto ao aprendizado de máquina. Isso permitiu considerar variáveis como incidência solar, velocidade dos ventos, segurança hídrica, geografia local e proximidade à infraestrutura energética nas diferentes regiões analisadas.
Como resultado desse trabalho, foram identificados sete clusters com alto potencial produtivo e dez regiões com significativa demanda industrial para a energia derivada do hidrogênio.
Regiões com maior potencial produtivo
A pesquisa indica que o Nordeste brasileiro se destaca na geração de hidrogênio verde, especialmente os estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Bahia. Essas áreas oferecem condições climáticas favoráveis, com abundância de sol e ventos durante todo o ano.
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A disponibilidade solar e os ventos constantes são essenciais para gerar energia renovável (solar e eólica), que pode ser utilizada na produção de hidrogênio sem emissões de carbono através dos eletrolisadores. Esses dispositivos utilizam eletricidade para separar as moléculas da água, resultando em energia limpa.
Dentre os estados com elevado potencial produtivo estão Ceará e Pernambuco, ambos situados próximos a portos estratégicos (como Pecém – CE e Suape – PE), facilitando a exportação e circundados por importantes hubs industriais.
Centros de consumo industrial
<pEnquanto o Nordeste se estabelece como um centro produtor, as regiões Sudeste e Sul concentram a maior parte do consumo industrial. Esses locais abrigam o principal complexo industrial brasileiro.
Os estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul são reconhecidos como polos siderúrgicos significativos além de serem grandes produtores nos setores petroquímico e petrolífero — atividades intensivas em consumo energético que poderiam se beneficiar da implementação do H2V.
No entanto, existe um desafio logístico notável entre a produção e o consumo dessas energias. O estudo ressalta a necessidade urgente de desenvolver redes de transporte adequadas para resolver questões relacionadas ao alto custo da compressão e armazenamento do hidrogênio.
O transporte do H2V pode ser realizado através da amônia líquida ou gasodutos; também pode ser armazenado em cilindros sob pressão. A amônia é frequentemente vista como uma solução viável para transporte em larga escala, especialmente via marítima. Já os gasodutos são mais adequados para distâncias menores.
A pesquisa sugere que criar hubs industriais dedicados ao hidrogênio seria uma estratégia eficaz para unir produção e consumo, permitindo assim reduzir custos logísticos e minimizar perdas energéticas.
No Centro-Oeste brasileiro, entre Goiás e Mato Grosso, as condições solares favoráveis combinadas com extensas áreas disponíveis podem contribuir significativamente para a infraestrutura voltada à produção de hidrogênio.
O Plano Nacional de Energia 2050 delineado pelo governo brasileiro projeta uma crescente importância do hidrogênio na descarbonização das indústrias nos anos vindouros.
No ano seguinte a 2024, foi aprovada na Câmara dos Deputados uma proposta conhecida como “PL do Hidrogênio Verde”, que prevê incentivos fiscais totalizando R$ 18 bilhões ao longo dos próximos cinco anos. Essa legislação visa estimular investimentos na aquisição de máquinas, equipamentos e materiais necessários para empresas focadas na produção sustentável desse combustível.
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Atualmente já existem mais de US$ 30 bilhões destinados a projetos nesse setor com vistas ao aumento da capacidade produtiva nacional através do Programa Nacional do Hidrogênio (PNH2).
