O evangelista Silas Malafaia voltou a disparar críticas em um novo vídeo enérgico, desta vez direcionado ao ministro Alexandre de Moraes, através de suas redes sociais. É importante fazer uma análise sobre isso. Todo cidadão, incluindo pastores, possui o direito de questionar as ações do governo, alertar sobre possíveis abusos e exigir que o devido processo legal seja respeitado. No entanto, o que realmente chama a atenção é como Malafaia transforma uma investigação que envolve sua atuação política em um relato de perseguição religiosa, sugerindo que qualquer escrutínio sobre suas atividades políticas se assemelha a um ataque ao Evangelho.
Essa situação me leva a indagar: por que está chorando, Malafaia?
A questão não é zombar de sua possível dor pessoal, mas sim entender por que um indivíduo que se apresentou como destemido frente ao poder agora parece querer caracterizar a ação estatal contra ele como uma forma de perseguição aos cristãos. Malafaia sempre se posicionou como alguém que enfrenta e desafia adversários sem temor. Quando suas críticas eram direcionadas a opositores políticos, ministros do Supremo Tribunal ou governos de esquerda, sua retórica era marcada pela coragem. Contudo, ao ser alvo de investigações, sua narrativa muda drasticamente: surgem referências à perseguição, covardia e tentativas de silenciamento.
Malafaia parece argumentar: sou pastor; sou um homem de fé; critiquei Moraes; sou alvo de operações; logo, estou sendo perseguido por aquilo que represento. Contudo, essa representação não é tão abrangente quanto ele afirma. Ele se posiciona como “representante dos evangélicos”, mas na realidade fala apenas por uma fração restrita desse grupo, especialmente aqueles ligados à denominação que fundou: Assembleia de Deus Vitória em Cristo. Não pode falar em nome de todas as Assembleias de Deus. Portanto, essa ideia (de estar sendo atacado pelo que representa) não é garantida automaticamente. É preciso fazer uma pergunta simples: Malafaia está sendo investigado por ser pastor ou por suas ações políticas?
Se houvesse uma verdadeira perseguição por pregar o Evangelho ou realizar cultos religiosos, estaríamos diante de uma séria violação da liberdade religiosa. No entanto, investigar um pastor devido a atos realizados no âmbito político não configura necessariamente perseguição religiosa. Aceitar essa premissa seria extremamente perigoso; qualquer líder religioso poderia entrar na política e depois clamar por imunidade religiosa para evitar o escrutínio institucional.
O Estado laico não funciona dessa maneira. O fato de ser pastor não isenta ninguém das leis. Malafaia parece querer desfrutar simultaneamente dos dois mundos: a influência política resultante da participação ativa na disputa pelo poder e a proteção simbólica associada à figura do pastor perseguido quando suas ações são questionadas. Essa postura é incoerente.
Além disso, sua retórica frequentemente redireciona o debate para a figura de Alexandre de Moraes. O ministro se torna um “ditador”, “criminoso” e “perseguidor”. A partir daí surge uma conclusão arriscada: se Moraes possui essas características negativas, toda investigação promovida por ele seria automaticamente ilegítima. Esta lógica não se sustenta; em uma democracia, não se escolhe um lado para dar-lhe um cheque em branco.
Há também uma questão mais profunda relacionada ao uso da linguagem religiosa para proteger uma identidade política. Ao longo dos anos, Malafaia construiu uma imagem pública que combina elementos de pastor, empresário e líder religioso com militância política e influência sobre massas. Em seus discursos políticos, utiliza a autoridade ganhada no púlpito. Quando enfrenta opositores políticos, mobiliza símbolos religiosos e apresenta suas posições como defensivas dos valores cristãos.
No entanto, quando tais ações políticas são questionadas, ele tenta retornar à sua identidade exclusivamente religiosa: “sou pastor”, “estão atacando minha fé”, “querem me silenciar”. Não é viável agir como político quando isso gera poder e ser visto como vítima religiosa quando implica responsabilidade. Essa é a incoerência central da situação.
Atualmente Malafaia “lamenta”. Porém, ele não expressava tal sentimento quando atacava seus opositores ou afirmava que governos progressistas destruiriam o Brasil. Não chorava ao transformar ministros do Supremo em alvos públicos ou convocar multidões para pressionar instituições contra adversários ideológicos.
Se acredita que Alexandre de Moraes excedeu suas atribuições legais, deve apresentar evidências concretas e contestar a legalidade das ações tomadas contra ele. Mobilize advogados e recorra às instâncias apropriadas para denunciar publicamente injustiças percebidas. Porém, não transforme automaticamente uma investigação sobre seu comportamento político em um ataque ao Evangelho; isso não só é intelectualmente desonesto como diminui a própria defesa da liberdade religiosa.
A fé cristã não necessita de mártires fabricados e Deus certamente não precisa da autorização de Silas Malafaia para atuar na política brasileira. Uma teologia pública madura deve afirmar claramente: o pastor também é cidadão; líderes religiosos devem responder por seus atos; autoridade espiritual não garante imunidade política; e o púlpito não deve servir como abrigo contra responsabilidades públicas — isso se aplica tanto a Malafaia quanto a qualquer outro líder religioso.
Parece que parte do evangelicalismo brasileiro confundiu há muito tempo defender o Evangelho com defender determinados interesses políticos — esse é o real problema que deveria preocupar os cristãos. Não se trata apenas da possibilidade ou impossibilidade de criticar Malafaia; mas sim da construção de uma fé capaz de subsistir sem depender do governo ou figuras políticas.
O Evangelho não pertence nem a Bolsonaro nem a Lula ou Moraes; tampouco está vinculado a Malafaia. O Evangelho dispensa padrinhos políticos e um pastor que decide entrar na esfera pública deve aceitar uma regra fundamental da vida democrática: quem busca influenciar o poder também precisa estar preparado para ser questionado pelo mesmo poder.
E se Malafaia realmente confia na força das suas convicções pessoais, deveria encarar esse exame à luz dos fatos com serenidade. Afinal, quem passou tantos anos proclamando “não tenho medo” deveria agora recordar-se do que sempre pregou: coragem é enfrentar investigações sem demonizar os investigadores ou converter as investigações em perseguições religiosas.
Diante disso tudo, Malafaia, chorar não é necessário — você deve responder às questões levantadas. Em uma democracia saudável até mesmo pastores precisam prestar contas por suas ações públicas e talvez esse momento tenha chegado para você.
* Este artigo não reflete necessariamente a opinião da Revista Fórum.
** Zé Barbosa Jr é teólogo, pastor licenciado em história e pós-graduado em Ciências Políticas
