A família de Rodrigo Martins de Mello, conhecido como Rodrigo Cataratas e que foi condenado em primeira instância por sua ligação com o garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, financiou parte da estrutura utilizada por Alexandre Ramagem durante sua estadia nos Estados Unidos. A Polícia Federal apreendeu mensagens que revelam que os parentes do empresário forneceram hospedagem e auxiliaram o ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) a se estabelecer na Flórida.
Essas informações foram divulgadas nesta terça-feira (29) pela Agência Pública, em uma reportagem elaborada por Natalia Viana e Ethel Rudnitzki, com a colaboração de Brenda Medina e do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ).
O material coletado faz parte das evidências reunidas pela Polícia Federal na investigação sobre a saída de Ramagem do Brasil. O ex-deputado e ex-chefe da Abin foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) devido à sua participação em um esquema golpista, deixando o país apesar das restrições impostas pela Justiça.
Assistência da família a Ramagem nos EUA
As mensagens indicam que Celso Rodrigo de Mello, filho de Rodrigo Cataratas, esteve diretamente envolvido nos preparativos para ajudar Ramagem enquanto ele estava nos Estados Unidos. Em uma das comunicações, ele solicita à madrasta uma conta referente ao apartamento da família em nome do pai e menciona ter elaborado um contrato onde Ramagem figuraria como locatário de um quarto.
Esse documento seria utilizado para auxiliar o ex-chefe da Abin a comprovar residência e obter uma carteira de motorista na Flórida.
Ramagem permaneceu hospedado por aproximadamente três meses em um imóvel pertencente à família no condomínio Sole Mia, localizado em Miami. Outra mensagem obtida pelos investigadores revela Priscila Freitas de Melo, então esposa de Cataratas, autorizando a emissão de um cartão para acesso ao estacionamento para Ramagem e apresentando-o à administração do condomínio como amigo do casal.
Dessa forma, o suporte oferecido não se configura apenas como um contato ocasional. Os documentos encontrados pela PF demonstram que membros da família estiveram envolvidos nas questões práticas relacionadas à estadia de Ramagem nos Estados Unidos, desde a hospedagem até a busca por comprovantes necessários para sua vida no país.
Condenação relacionada ao garimpo na Terra Yanomami
Rodrigo Cataratas foi sentenciado pela Justiça Federal em Roraima em um caso ligado à exploração ilegal de ouro e cassiterita na Terra Indígena Yanomami. A decisão inicial também afetou familiares e outros integrantes do grupo sob investigação.
A sentença afirma que havia uma estrutura dedicada ao financiamento e logística do garimpo ilegal, incluindo o uso de aeronaves para transportar pessoas, combustível e minerais. Celso Rodrigo de Mello, mencionado nas mensagens ligadas a Ramagem, também recebeu condenação no mesmo processo.
A defesa de Cataratas contesta a decisão judicial, alegando inconsistências na sentença e anunciou a intenção de recorrer.
A Terra Yanomami, situada entre Roraima e Amazonas, emergiu como um dos principais alvos das operações federais contra o garimpo ilegal nos últimos anos. As investigações revelaram redes complexas envolvendo financiamento, transporte aéreo, comércio ilegal de ouro e abastecimento das áreas mineradoras dentro da terra indígena.
Saída de Ramagem do Brasil para a Flórida
Alexandre Ramagem exerceu funções como chefe da Abin durante o governo Jair Bolsonaro e posteriormente foi eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro. Ele foi condenado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal a 16 anos, um mês e 15 dias de prisão sob as acusações de organização criminosa, tentativa violenta contra o Estado Democrático de Direito e golpe de Estado.
A Polícia Federal apurou que Ramagem deixou o Brasil através de Roraima, cruzou a fronteira terrestre com a Guiana e seguiu rumo aos Estados Unidos.
Publicações anteriores relataram sobre as implicações da fuga de Ramagem e os questionamentos gerados por sua atuação como parlamentar enquanto estava fora do país.
Antes da sua saída, o deputado movimentou milhões em recursos por meio de emendas. Um levantamento anterior indicou que ele destinou R$ 24,3 milhões em emendas parlamentares, sendo menos de 5% desse total voltado para segurança pública—a área central do seu discurso político.
No território americano, Ramagem chegou a ser detido pelas autoridades migratórias em abril de 2026 mas foi liberado após dois dias. O Brasil formalizou um pedido de extradição do ex-diretor da Abin que tenta permanecer no exterior com um pedido formal de asilo.
A descoberta sobre o apoio fornecido pela família Cataratas revela agora quem efetivamente auxiliou Ramagem durante parte desse período. A Pública tentou entrar em contato com Alexandre Ramagem, Rodrigo Cataratas e Celso Mello para comentar sobre as informações encontradas nas mensagens; no entanto, não obteve resposta até o fechamento desta matéria.
