Com a Copa do Mundo de 2026 se aproximando, os Estados Unidos, um dos países anfitriões ao lado do México e do Canadá, estão no centro de uma polêmica crescente relacionada a restrições migratórias. Acusações de xenofobia têm surgido em relação a atletas, jornalistas e membros de delegações internacionais que tentam entrar no país.
Um dos casos mais significativos é o do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, de 34 anos, que foi barrado na entrada dos EUA, apesar de possuir um visto válido. Reconhecido como um dos principais árbitros africanos e membro da FIFA desde 2018, Artan teria se tornado o primeiro árbitro da Somália a apitar em uma Copa do Mundo. A entidade máxima do futebol confirmou que ele não poderá participar do torneio devido à negativa das autoridades imigratórias americanas.
“Inadmissível”
A polícia de fronteira dos Estados Unidos classificou o árbitro como “inadmissível” após uma verificação adicional de antecedentes, sem fornecer mais detalhes sobre a decisão. O governo da Somália demonstrou forte insatisfação com a situação, considerando-a uma violação dos princípios de mérito e igualdade que o futebol defende.
Ciise Aden Abshir, assessor do Ministério dos Esportes da Somália, comentou: “Omar é um dos árbitros mais respeitados na África. Impedir sua participação na Copa não só prejudica sua carreira, mas também enfraquece o compromisso do futebol com a equidade.”
A situação torna-se ainda mais complexa porque a Somália está na lista de países cujos cidadãos enfrentam severas limitações para viajar impostas pela administração anterior de Donald Trump. No final do ano passado, Trump referiu-se ao país africano como um “país podre”, defendendo políticas mais rigorosas contra seus cidadãos.
Fotógrafo iraquiano
Além do caso de Artan, outros incidentes semelhantes foram reportados. Recentemente, o fotógrafo iraquiano Talal Saleh, que acompanhava a seleção do Iraque, teve sua entrada negada nos Estados Unidos. O atacante Aymen Hussein também enfrentou dificuldades: ele ficou detido por sete horas no aeroporto para interrogatório antes de ser liberado.
Seleção do Haiti
A equipe haitiana também passou por dificuldades migratórias. O jogador Woodensky Pierre conseguiu embarcar para os Estados Unidos somente após um longo processo para obter seu visto. Outros membros da delegação haitiana ainda aguardam autorização para viajar.
As restrições impactam igualmente jornalistas e profissionais envolvidos no evento. A Associação Internacional de Imprensa Esportiva (AIPS) enviou uma comunicação à FIFA expressando preocupação com as negativas de vistos destinadas a profissionais provenientes do Irã e de alguns países africanos. Em resposta, a FIFA afirmou que as questões relacionadas à imigração são responsabilidade exclusiva das nações anfitriãs.
Irã
A situação é particularmente crítica para o Irã, que também se classificou para a Copa. Em meio ao aumento das tensões entre Washington e Teerã, autoridades iranianas afirmam que os Estados Unidos estão criando obstáculos à participação da seleção no torneio. Embora os vistos tenham sido emitidos para os jogadores, a delegação iraniana terá base em Tijuana, no México, realizando apenas visitas rápidas aos EUA durante as partidas.
A postura das autoridades iranianas considera essas exigências como uma forma de discriminação. Mehdi Taj, presidente da federação iraniana, afirmou: “O que está acontecendo reflete malícia e desigualdade entre as seleções.”
Imigração, direitos humanos e acessibilidade
Especialistas destacam que o contraste entre o discurso positivo em torno da Copa e as rígidas políticas migratórias dos Estados Unidos geram críticas sobre exclusão e discriminação. Ashleigh Huffman, ex-responsável pela diplomacia esportiva no Departamento de Estado americano, acredita que o Mundial se tornou um espaço para discussões mais amplas sobre imigração e direitos humanos.
“Essa competição tem o potencial de unir pessoas ao redor do mundo; contudo, também levanta questões sobre quem estará incluído nessa celebração global”, ressaltou Huffman.
Além das dificuldades enfrentadas por jogadores e membros das delegações nacionais, há preocupações sobre negativas de vistos e abordagens na fronteira que podem desestimular torcedores internacionais a viajarem para acompanhar os jogos presencialmente.
Enquanto a FIFA tenta manter o foco nas partidas dentro das quatro linhas, a Copa do Mundo de 2026 começa envolta em um debate maior que vai além do futebol: até onde políticas migratórias restritivas podem comprometer o caráter universal deste que é o maior evento esportivo mundial.
