A Operação Wi-Fi, conduzida pela Polícia Civil, investiga uma rede de conexões que envolve o deputado federal Mario Frias (PL), a empresária Karina Gama, responsável pela produção do filme Dark Horse, e um contrato de milhões com a Prefeitura de São Paulo para a implementação de internet gratuita nas comunidades da cidade.
As investigações têm como objetivo determinar se verbas públicas alocadas para o programa de conectividade foram indevidamente desviadas para apoiar a realização do longa-metragem sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Os envolvidos negam qualquer irregularidade.
Detalhes do contrato sob investigação
O foco das apurações recai sobre um contrato estabelecido entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização liderada por Karina Gama.
A entidade foi contratada para implantar milhares de pontos de Wi-Fi gratuito em áreas públicas da capital. Inicialmente, o valor do contrato era de R$ 108 milhões, mas depois foi elevado para aproximadamente R$ 143 milhões.
De acordo com as autoridades, há indícios de direcionamento no processo seletivo, falta de capacidade técnica do ICB para executar o projeto, pagamentos por serviços não realizados e possível superfaturamento nos valores acordados.
A trajetória de Karina Gama
Karina Gama é presidente do Instituto Conhecer Brasil e sócia da produtora Go Up Entertainment, que criou o filme Dark Horse, uma cinebiografia de Jair Bolsonaro.
A empresária é considerada uma aliada política próxima de Mario Frias. A parceria entre eles se estreitou quando Frias ocupava a Secretaria Especial de Cultura durante o governo Bolsonaro.
No decorrer dos últimos anos, Karina passou a gerir contratos significativos com a Prefeitura e ampliou suas atividades comerciais, consolidando sua colaboração com Frias.
A conexão de Mario Frias no caso
Mário Frias não apenas foi um dos responsáveis pela produção de Dark Horse, mas também destinou R$ 2 milhões em emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil.
Suas ligações vão além da ONG.
Documentos da Câmara dos Deputados revelam que seu gabinete contratou empresas ligadas ao círculo próximo de Karina Gama para oferecer serviços relacionados ao CRM político, uma ferramenta utilizada para gerenciar relacionamentos com eleitores e atividades parlamentares.
Entre setembro de 2024 e abril de 2026, a Complexsys Soluções Integradas recebeu cerca de R$ 154 mil da cota parlamentar do deputado.
Anteriormente, entre abril de 2023 e agosto de 2024, esse serviço foi prestado pela GTrend, empresa pertencente a Wemerson Marinho da Gama, ex-marido de Karina, que recebeu aproximadamente R$ 115 mil do gabinete.
Pontos relevantes na investigação
A troca nas empresas prestadoras ocorreu logo após o término do relacionamento entre Karina e Wemerson.
Adicionalmente, documentos analisados indicam que as notas fiscais emitidas tanto pela GTrend quanto pela Complexsys apresentavam descrições quase idênticas dos serviços prestados ao gabinete, apesar das diferenças nas empresas emissoras.
Wemerson declarou acreditar que havia sido contratado devido à sua ligação familiar com Karina Gama e afirmou ter atuado corretamente durante os serviços prestados.
Motivos para a investigação da Complexsys
A Complexsys está envolvida em dois aspectos distintos das investigações.
Além dos serviços prestados ao gabinete de Mario Frias, a empresa foi subcontratada pelo Instituto Conhecer Brasil para realizar parte do contrato relativo ao Wi-Fi com a Prefeitura de São Paulo.
A polícia estima que as subcontratações realizadas pelo ICB podem totalizar aproximadamente R$ 98 milhões.
Há suspeitas por parte dos investigadores que algumas dessas empresas possam ter sido utilizadas para dispersar recursos públicos, dificultando seu rastreamento efetivo.
A Complexsys é propriedade do empresário André Feldman, que tem registros fotográficos em redes sociais ao lado de Karina Gama.
A polêmica da nota fiscal no valor de R$ 2 milhões
Cerca de uma das questões mais sensíveis na investigação gira em torno uma nota fiscal no valor de R$ 2 milhões emitida pela Complexsys em novembro de 2025.
Dicha nota referia-se a supostos serviços técnicos relacionados à verificação e reparo de equipamentos utilizados no programa Wi-Fi. No entanto, registros oficiais mostram que essa nota foi cancelada no mesmo dia em que foi gerada.
Ainda assim, ela foi incluída pelo Instituto Conhecer Brasil na prestação contas enviada à prefeitura meses depois. A polícia busca entender por que um documento sem validade fiscal foi utilizado para justificar despesas desse contrato.
Papel do filme “Dark Horse” na investigação
A principal suspeita das autoridades é que parte dos recursos movimentados pelo Instituto Conhecer Brasil e suas subcontratadas tenha sido destinada ao financiamento da produção do filme sobre Jair Bolsonaro.
No pedido feito para quebra do sigilo bancário de Karina Gama, os investigadores mencionam indícios que sugerem confusão patrimonial entre a ONG, empresas privadas e a produtora responsável pelo longa-metragem.
A suposição é que verbas públicas destinadas ao programa gratuito possam ter sido desviadas através contratos e transferências entre entidades ligadas ao mesmo grupo empresarial.
Posições dos envolvidos no caso
Karin Gama optou por não se pronunciar publicamente sobre as acusações levantadas contra ela. Por outro lado, Mario Frias defendeu sua parceira afirmando confiar plenamente nela. O deputado acredita que Karina está sendo alvo político na investigação e garante que todas as operações financeiras poderão ser esclarecidas adequadamente.
A Complexsys comunicou atuar unicamente como prestadora dos serviços do Instituto Conhecer Brasil e afirmou estar colaborando com os órgãos competentes durante as investigações. Por sua vez, a Prefeitura de São Paulo reafirmou que o programa está funcionando normalmente e assegurou já ter fornecido toda documentação requisitada pela Polícia Civil.
O prefeito Ricardo Nunes (MDB) negou qualquer irregularidade nas operações relacionadas ao contrato e disse que todos os processos seguiram critérios legais e técnicos estabelecidos previamente. Enquanto isso, as investigações continuam com uma análise minuciosa sobre contratos firmados, transferências bancárias e documentos apreendidos visando esclarecer eventuais desvios financeiros associados à produção cinematográfica através do contrato referente ao Wi-Fi.
Nota oficial da gestão Nunes
“A Prefeitura Municipal informa sua disposição em colaborar com as investigações em curso e já forneceu informações solicitadas. Todo material requisitado nesta manhã já tinha sido disponibilizado às autoridades competentes anteriormente. Ressaltamos ainda que esses documentos são acessíveis publicamente por meio da prestação regular das contas municipais. O programa está operando normalmente na cidade; atualmente há apenas 52 dos 3.200 pontos contratados fora do ar devido à manutenção programada. É importante frisar que não houve pagamentos referentes aos cinco mil pontos adicionais; o aditivo mencionado refere-se exclusivamente à manutenção dos pontos já existentes nas comunidades periféricas”.
Nota do Ministério Público
O MP está investigando os contratos firmados pela ONG em duas vertentes: Patrimonial e Criminal. Em comunicado oficial, a Promotoria Justiça Patrimônio Público e Social esclareceu: “um inquérito civil encontra-se ativo visando apurar possíveis irregularidades no Termo de Colaboração n.º 01/SMIT/2024 celebrado entre a Secretaria Municipal Inovação Tecnologia e o Instituto Conhecer Brasil; seu objetivo é implementar cinco mil pontos públicos Wi-Fi nas comunidades locais durante um ano.”
A promotoria também relatou haver informações sobre: A) suposto direcionamento nos processos públicos anteriores; B) falta justificativas técnicas ou econômicas pertinentes à formalização com essa organização civil; C) realização consecutiva três aditamentos contratuais em curto espaço temporal; D) repasses financeiros previstos inicialmente apenas para etapas posteriores sem os serviços correspondentes terem sido implementados”
