O Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR) decidiu consolidar em um único processo todas as acusações contra o padre Genivaldo Oliveira dos Santos, de 42 anos, na comarca de Cascavel. Essa decisão foi motivada por um recurso apresentado pelo Ministério Público do Paraná (MPPR), que argumentou que o julgamento separado dos 25 crimes atribuídos ao religioso poderia fragmentar as provas e prejudicar a responsabilização penal.
A medida foi aprovada pela 5ª Câmara Criminal e abrange especialmente três crimes que não foram inicialmente aceitos pela Justiça de primeira instância, sob a justificativa de que ocorreram fora de Cascavel. O MPPR defendeu que todas as ocorrências estão interligadas por aspectos probatórios, incluindo circunstâncias e métodos similares, um ponto que foi acolhido pelo tribunal.
Dessa forma, Genivaldo agora enfrentará todos os crimes em um único foro, incluindo nove casos de estupro de vulnerável, dois relacionados a violação sexual mediante fraude (um consumado e outro tentado), seis casos de importunação sexual, um caso de fornecimento de substância nociva sob pretexto medicinal e sete crimes associados ao tráfico de drogas.
Investigações revelam padrão de abuso
As apurações realizadas pelo Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes (Nucria), no contexto da Operação Lobo em Pele de Cordeiro, indicam que o padre teria se aproveitado de sua posição religiosa para se aproximar das vítimas, muitas das quais eram jovens e adolescentes em situação vulnerável.
Os depoimentos coletados revelam que o religioso organizava encontros e festas em espaços vinculados à igreja, onde ocorriam consumo de bebidas alcoólicas e, em algumas situações, uso de substâncias ilícitas. Há relatos indicando que ele oferecia supostos “tratamentos” para dependência química e que teria dopado as vítimas antes dos abusos.
Os delitos teriam ocorrido entre 2010 e 2019 em várias localidades do Oeste do Paraná, como Cascavel, Santa Lúcia e Boa Vista da Aparecida, além de registros no Rio de Janeiro. Até agora, foram identificadas 16 vítimas formalmente, cujas idades variavam entre 12 e 48 anos na época dos eventos.
Entre os episódios mais recentes incluídos na denúncia está o caso envolvendo três membros da mesma família. Segundo o MPPR, um adolescente de 17 anos teria sido vítima tanto de estupro quanto de importunação sexual. Sua irmã, com 18 anos, e a mãe, com 48 anos, teriam sido induzidas ao consumo e à distribuição de drogas durante atendimentos realizados na residência paroquial onde o padre atuava.
Genivaldo encontra-se preso preventivamente desde outubro de 2025 no Complexo Médico Penal. Sua detenção ocorreu após relatos sobre tentativas dele em contatar testemunhas durante a fase inicial das investigações — uma situação que levantou preocupações sobre possíveis interferências no processo judicial.
A defesa do padre nega todas as acusações feitas contra ele e afirma estar reunindo evidências para contestar os depoimentos das vítimas. Em comunicado oficial, os advogados afirmam que as denúncias são infundadas e garantem que a inocência do religioso será comprovada ao longo do processo judicial.
No âmbito da Igreja Católica, a Arquidiocese de Cascavel afastou imediatamente o padre assim que as denúncias vieram à tona. Um procedimento administrativo canônico foi instaurado e o caso será submetido à análise do Vaticano.
Caso as acusações sejam confirmadas também no contexto religioso, Genivaldo poderá enfrentar a pena máxima prevista pelo direito canônico: a demissão do estado clerical, resultando na perda definitiva do título sacerdotal.
A cúria local ainda não se manifestou oficialmente sobre alegações relacionadas ao fato de que parte dos crimes teria ocorrido dentro das dependências paroquiais.
Além das penalidades criminais solicitadas pelo Ministério Público, foi requerido que Genivaldo indenize as vítimas por danos morais e materiais. Os valores solicitados variam entre R$ 20 mil e R$ 150 mil por pessoa, dependendo da gravidade dos casos individuais.
Dada a gravidade e a quantidade dos crimes imputados ao religioso, estima-se que uma condenação máxima possa resultar em penas superiores a 500 anos de prisão — um número que ilustra a seriedade das acusações enfrentadas por ele.
Um caso emblemático
A centralização do julgamento na comarca de Cascavel é considerada um passo crucial para garantir uma análise mais coerente das provas apresentadas e evitar decisões contraditórias. Essa unificação também destaca a natureza sistêmica das acusações contra Genivaldo, sugerindo não apenas episódios isolados mas sim um padrão prolongado de comportamentos criminosos.
Esse caso traz à tona questões sobre como posições religiosas podem ser utilizadas para perpetrar crimes, reavivando debates sobre mecanismos adequados para controle interno nas instituições religiosas e proteção aos fiéis — especialmente aqueles mais vulneráveis dentro dessas comunidades.
