Pesquisadores da Universidade Federal do Ceará descobriram uma nova espécie de peixe, denominada “peixe das nuvens”, em uma pequena poça de água temporária situada às margens de uma rodovia federal no município de Penaforte, no Ceará. Este achado representa a primeira vez que essa espécie é registrada na região.
A descrição detalhada do Cynolebias penaforte foi divulgada em um artigo no periódico Zootaxa. Até então, não havia registros dessa espécie na parte superior da bacia do rio Jaguaribe, onde se localiza o município.
Anteriormente, a única espécie do gênero Cynolebias conhecida na área era o Cynolebias microphthalmus, que é típico das regiões costeiras do Nordeste e da Caatinga.
Os peixes das nuvens são conhecidos por serem espécies de água doce que aparecem anualmente nas bacias hidrográficas durante a temporada chuvosa. Quando seus habitats secam completamente, os ovos conseguem sobreviver enterrados no solo árido e eclodem com a chegada das chuvas.
Através de análises morfológicas e genéticas, os cientistas confirmaram que os espécimes coletados em Penaforte pertencem a uma espécie inédita, contribuindo assim para o conhecimento sobre a evolução dos ecossistemas aquáticos do semiárido, que dependem de um regime de chuvas irregular.
Cynolebias penaforte. Créditos: Peixes da Caatinga / divulgação
A família dessa nova espécie possui um ciclo de vida rápido: os peixes nascem, crescem e atingem a maturidade sexual em poucos dias durante a estação chuvosa. Antes que as poças sequem completamente, eles depositam seus ovos na lama acumulada no fundo.
Os adultos não sobrevivem quando as poças secam totalmente, mas seus ovos são adaptados para resistir aos meses quentes da estiagem.
De acordo com os pesquisadores, essa nova espécie se destaca por “não apresentar órgãos de contato na face interna das nadadeiras peitorais dos machos e por ter um maior número de escamas na nadadeira dorsal.”
“A nova espécie foi observada exclusivamente em uma poça temporária próxima aos canais de transposição das águas do rio São Francisco, demonstrando um possível impacto das mudanças nos ciclos hidrológicos sobre os peixes anuais (killifishes) típicos da região semiárida brasileira,” afirmam os especialistas no artigo publicado.
A descoberta teve início através das redes sociais, quando um morador local contatou o projeto Peixes da Caatinga para relatar a existência de peixes semelhantes aos estudados pelo grupo em um determinado local.
Diante da falta de recursos públicos para realizar uma expedição imediata, os pesquisadores e colaboradores organizaram uma campanha independente para arrecadar fundos para a viagem. A coleta realizada confirmou as suspeitas iniciais e as análises laboratoriais resultaram na identificação da nova espécie.
No momento, o Cynolebias penaforte foi encontrado apenas em uma única poça temporária. Parte desse habitat já foi aterrada devido à proximidade com uma rodovia federal, enquanto o restante se encontra nas proximidades das estruturas relacionadas à transposição do rio São Francisco.
