A questão central que se coloca é: por que não? Essa indagação deve ser analisada tanto pelo País quanto pelo Governo Federal. Nesta semana, a Câmara dos Deputados deve deliberar sobre o Projeto de Lei nº 2.780/2024, que estabelece a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Especialistas do setor mineral acreditam que o relatório a ser votado prioriza interesses privados em detrimento de questões nacionais mais amplas, favorecendo, em particular, interesses internacionais. Reiteramos: Terrabras, sim!
Uma segunda reflexão necessária é: como, em um contexto de bloqueio no Estreito de Ormuz e com os preços do petróleo em ascensão devido à crise energética global, o Brasil consegue manter um equilíbrio admirável e preços de combustíveis sustentáveis? Esse feito é frequentemente elogiado por analistas internacionais. Alguém poderia duvidar que essa estabilidade se deve à presença da nossa principal empresa estatal? A resposta é clara: Petrobras, sim!
No centro do debate atual está a questão de saber se o Projeto de Lei nº 2.780/2024 percebe realmente nossos elementos de terras raras como um verdadeiro recurso geopolítico. O que realmente importa é entender qual será a importância estratégica atribuída às nossas riquezas. Aparentemente, o panorama continuará sendo o mesmo: um incentivo à iniciativa privada, como se entidades estatais fossem vistas com desconfiança em um mundo neoliberal que há anos domina a economia nacional e ainda exerce forte influência no setor mineral brasileiro, inclusive no Congresso Nacional.
Quando falamos sobre Terras Raras (TR), existem diversas razões pelas quais é crucial que o Brasil mantenha sua soberania. Esta discussão não deve ser restrita apenas aos especialistas (como geólogos, químicos e engenheiros), mas sim buscar tornar o tema acessível a todos os leitores interessados, através de uma abordagem clara e objetiva.
É fundamental neste momento reconhecer, conforme explica o SGB – Serviço Geológico do Brasil, que “a aquisição e processamento de dados geológicos, geofísicos e geoquímicos são essenciais para subsidiar a avaliação da viabilidade técnica e econômica dos recursos minerais”. Esses dados são imprescindíveis para justificar uma significativa presença estatal no setor mineral, com ou sem empresa específica (o tempo dirá!), mas é vital que tenhamos uma ferramenta real de política pública que considere estratégia, território e sociedade.
Assim sendo, este breve artigo apresenta três tipos de considerações: primeiramente, aquelas de natureza conceitual; em segundo lugar, as relacionadas ao uso dos elementos de TR (ou seja, suas inúmeras aplicações industriais); por último, as questões geopolíticas que são cruciais para a discussão contemporânea.
Os elementos conhecidos como terras raras não são nem terras nem realmente raros. É verdade que existem TR em várias regiões do planeta e no Brasil não é diferente. Existem 17 elementos químicos agrupados na Tabela Periódica devido às suas características semelhantes: “este grupo apresenta propriedades químicas quase idênticas”, sendo essa similaridade o primeiro desafio a ser enfrentado na sua industrialização.
Tabela periódica destacando os 17 elementos que
compõem o grupo dos ETR. Fonte: Shutterstock (s.d.)
A primeira classificação desses elementos divide-os entre terras raras leves (La, Ce, Pr, Nd, Pm, Sm, Eu, além de Sc e Y) e terras raras pesadas (Gd, Tb, Dy, Ho, Er, Tm, Yb e Lu). Essa categorização é relevante para suas aplicações industriais específicas, pois diferentes elementos têm utilidades distintas em ímãs permanentes, catalisadores e tecnologias avançadas.
Cabe ressaltar que as TR na natureza ocorrem invariavelmente associadas umas às outras; assim seus minerais frequentemente consistem em misturas. Isso gera um “desafio histórico relacionado à separação e identificação desses elementos”, uma etapa essencial para viabilizar seu uso industrial (veremos adiante as diversas aplicações).
Nunca é demais salientar que o Brasil detém a segunda maior reserva mundial de TR, ficando atrás apenas da China. Os dados podem variar (segundo as fontes consultadas), mas podemos resumir com precisão:
China: – 44 milhões de toneladas (48-49% do total mundial). É líder absoluta em produção e refino tecnológico com extração prevista de cerca de 270 mil toneladas em 2024.
Brasil: – 21 milhões de toneladas (23% do total). Embora possua grande potencial mineral, sua produção ainda é incipiente com aproximadamente 20 toneladas previstas para 2024; isso ocorre especialmente nas reservas de argila iônica localizadas em Goiás.
No cenário global,“TRs podem ser encontradas em diversos países como China, Austrália, Canadá e Estados Unidos; contudo sua extração econômica ainda representa um desafio”.
No Brasil,“os principais depósitos medidos de Elementos Terras Raras (ETRs) estão concentrados nos estados de Minas Gerais, Goiás e Bahia além do Amazonas e Sergipe. Estes estados possuem os tipos principais de depósitos com potencial econômico segundo levantamentos realizados pelo SGB e pela Agência Nacional de Mineração (ANM)”.
A presença das TR também tem gerado interesse especial sobre áreas no Brasil como a Amazônia devido a preocupações ambientais significativas relacionadas ao Amapá e principalmente Roraima:
“A descoberta significativa das altas concentrações das terras raras no município Caracaraí em Roraima representa um marco na história da mineração global. A região conhecida como Complexo Mineral Barreira possui concentrações inigualáveis de elementos como
európio, neodímio, ítio, itérbio, com índices entre 10 a 50 vezes superiores aos depósitos convencionais. Tal descoberta pode colocar o Brasil numa posição estratégica durante a transição energética mundial.”
A utilização dos elementos de terras raras é vital para muitos produtos modernos; entretanto será crucial garantir uma participação efetiva do Brasil nas principais cadeias globais desses ETRs. Não devemos ser apenas exportadores dessas commodities mas sim atuar ativamente nas fases subsequentes da produção que agregam valor dentro de um projeto nacional voltado ao desenvolvimento tecnológico. Por isso propomos a criação da empresa estatal TERRABRAS S.A.
No discurso sobre TRs outros termos vêm ganhando destaque midiático como minerais críticos ou estratégicos – por exemplo potássio e fosfato utilizados na agricultura são essenciais para fertilizantes enquanto as terras raras têm ampla aplicação tecnológica nos ímãs potentes usados em diversas indústrias modernas.
A importância disso pode ser vista na declaração do SGB:
“O Brasil lidera globalmente possuindo 94% das reservas mundiais deste elemento nióbio, equivalente a 16 milhões de toneladas; ocupa também o segundo lugar globalmente quanto às reservasde grafita, contando com 74 milhões toneladas (26%), além das terras raras somando 21 milhões toneladas (23%). No caso doníquel, temos a terceira maior reserva global estimada em 16 milhões toneladas.”
Analisando dinamicamente as informações disponíveis sobre mineração mundial fica claro porque criar TERRABRAS S.A faz sentido neste momento; além disso isso também contribuirá para reforçar o SGB – Serviço Geológico Brasileiro , fortalecerá AMN – Agência Nacional da Mineração bem como promoverá um reordenamento estratégico no CNPM – Conselho Nacional da Política Mineral.
Tabela – Empresas estatais na área Minerais Críticos/Terras Raras ao redor do mundo. Fontes: Elaboração própria com auxílio da IA (diversas fontes).
A Política Nacional sobre Minerais Críticos e Estratégicos precisa ir além; chegou o momento certo para usarmos nossos recursos minerais estratégicos incluindo terrenos raros como ativos políticos capazes de influenciar cadeias globais fornecedoras bem como disputas comerciais.
Pede-se uma revisão urgente nas políticas industriais existentes; agora é hora da Nova Indústria Brasileira incorporar prioritariamente os terrenos raros dentro da sua Missão 6: Tecnologias relevantes para defesa nacional.
Sendo assim somos uma nação rica em recursos minerais; urge transformar essa vasta capacidade mineral numa verdadeira
Relevância Estratégica no cenário internacional! Aqui está presente toda importância tecnológica das ETRs pois não basta sermos meros exportadores dessa riqueza gerando lucros imensos exclusivamente para algumas poucas empresas estrangeiras que controlam nossas jazidas naturais.
Terrabras sim!
Referências Bibliográficas
FGV. Caderno FGV Energia sobre Geopolítica da Energia Sustentável e seus Impactos na Transição Energética Brasileira.| FGV Energia Disponível em: https://fgvenergia.fgv.br/publicacao/caderno-fgv-energia-de-geopolitica-da-energia-de-baixo-carbono-e-seus-impactos-para (Acesso em 04 mai 2026)
(SOUZA Filho et al.) TERRAS RARAS: TABELA PERIÓDICA E EXPLORAÇÃO NO BRASIL E APLICAÇÕES; Nov/2019 “Essa similaridade química das TRs levou esforço contínuo à pesquisa necessária visando compreensão industrial.” Disponível em: https://www.scielo.br/j/qn/a/rTyGfYXTkyyQB8QgQcmtJZy/?format=html&lang=pt(Acesso em 04 mai 2026)(CGEE) Usos & Aplicações Terras Raras no Brasil:2012-2030.Brasília:CGEE.Publicado2013.ISBN9788560755646.(254 p.)
(SGB) Serviço Geológico Brasileiro esclarecendo potenciais estratégicos desse setor.Pode ser acessado aqui:https://www.sgb.gov.br/w/servico-geologico-do-brasil-esclarece-duvidas-sobre-potencial-do-pais-para-terras-raras-e-minerais-estrategicos(Acesso dia04 maio2026)
(G1) Identificações recentes indicando altas concentrações presentes TerraRara interiorRoraima.G1Disponibilizado:https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2025/09/03/pesquisadores-identificam-alta-concentracao-de-terras-raras-no-interior-de-roraima-e-estudam-existencia-de-jazida.ghtml(Acesso dia04 maio2026)
(SGB) Idem.
*Arthur Oscar Guimarães Doutor Sociologia UnB.Mestre COPPE/UFRJ.FormaçãoEconomiaUnB.PesquisadorNPCTS(UniversidadeBrasília )ProfessorVoluntárioCentroEstudosAvançadosMultidisciplinares.UnB.
