Uma discussão envolvendo uma vendedora ambulante e um grupo de turistas israelenses na região da Pituba, em Itacaré, no sul da Bahia, reacendeu um debate que há alguns anos circula entre moradores, comerciantes e trabalhadores do turismo em diferentes destinos do litoral baiano. A ambulante afirma ter sido agredida após um desentendimento ocorrido em via pública. Segundo relatos, ela estava trabalhando quando iniciou uma discussão com alguns integrantes do grupo estrangeiro. De acordo com a própria trabalhadora, a troca de ofensas rapidamente evoluiu para agressões físicas.
Um vídeo que circula nas redes sociais mostra a mulher com ferimentos no rosto. Nas imagens, ela relata que se sentiu humilhada e desrespeitada. Testemunhas dizem que o clima ficou tenso por alguns minutos, até que pessoas que estavam próximas intervieram para evitar que a situação se agravasse. Até o momento, não há confirmação oficial de registro de boletim de ocorrência. Ainda assim, o episódio ganhou grande repercussão entre moradores e trabalhadores da região, alimentando uma discussão mais ampla sobre a presença crescente de turistas israelenses em destinos turísticos da Bahia.
Embora Itacaré seja um dos lugares mais procurados do litoral sul baiano, conhecido por suas praias, trilhas e vida noturna, muitos moradores afirmam que o fluxo recente de visitantes tem características incomuns. Segundo relatos de comerciantes e profissionais do turismo, grande parte desses turistas é composta por jovens israelenses recém-saídos do serviço militar obrigatório em Israel, que costumam viajar pelo mundo após o período nas forças armadas.
O destino baiano no roteiro pós-exército
A presença de israelenses na Bahia não é exatamente nova. No entanto, moradores de lugares como Itacaré e Morro de São Paulo, no município de Cairu, afirmam que o fluxo aumentou de forma significativa nos últimos anos. Uma das explicações apontadas por empresários do setor turístico é a popularização de destinos brasileiros entre jovens israelenses por meio de produções audiovisuais estrangeiras.
Entre elas está a série Malabi Express, inspirada no livro autobiográfico do comediante israelense Miki Geva. A produção retrata a viagem de amigos ao Brasil após o término do serviço militar obrigatório e acabou ajudando a consolidar Morro de São Paulo como um dos destinos preferidos entre recém-licenciados das Forças Armadas de Israel.
Desde então, agências de turismo especializadas passaram a incluir o litoral baiano em roteiros voltados especificamente para esse público. De acordo com estimativas do setor turístico local, apenas em 2025 mais de quatro mil turistas israelenses passaram por Itacaré. Embora o fluxo represente uma fonte importante de renda, parte da população local afirma que a convivência nem sempre é tranquila.
Acusações de “apagamento cultural”
Empresários e trabalhadores relatam que, em algumas áreas turísticas, estabelecimentos passaram a adaptar cardápios, placas e serviços quase exclusivamente para o público israelense. Há um número crescente de cardápios em hebraico e redes de indicação entre turistas e estabelecimentos que acabam criando uma dinâmica de consumo relativamente fechada.
Para muitos empreendedores, isso acaba provocando um “apagamento cultural” da identidade local. Eles afirmam que comerciantes e trabalhadores relatam pedidos frequentes de desconto e resistência ao pagamento de taxas de serviço, como os famosos “dez por cento do garçom”. Até mesmo artistas locais tem encontrado problemas com a resistência, por exemplo, ao “couvert artístico”.
Nas redes sociais há inúmeros relatos de pessoas da ilha sobre muitas situações de conflito que acabam sendo abafadas, por medo de retaliações. Funcionários de pousadas, restaurantes e bares muitas vezes preferem não comentar publicamente. Muitas situações acabam sendo resolvidas internamente para evitar problemas.
Segundo moradores, a maioria dos visitantes é formada por jovens em férias após o serviço militar. É raro ver famílias ou pessoas mais velhas. São grupos grandes de jovens. Embora reconheçam que o turismo ajuda a movimentar a economia da ilha, afirmam que a presença massiva desses grupos tem alterado a dinâmica da vila.
Protestos e tensões políticas
O debate ganhou novos contornos políticos recentemente. Um grupo de manifestantes pró-Palestina realizou um protesto em Itacaré contra a presença de turistas israelenses na região. Com bandeiras e cartazes, os manifestantes defenderam o que chamam de “turismo ético”.
Num dos casos que se tornou público, a ativista brasileira Lisi Proença também relatou uma situação tensa durante uma visita a Morro de São Paulo. Segundo ela, após caminhar pela região e perceber cardápios em hebraico em diversos estabelecimentos, passou a ser observada e filmada por pessoas que estavam no local. “Começaram a nos seguir e a filmar. Então eu comecei a filmar de volta”, afirmou em vídeo publicado nas redes sociais. O episódio terminou com a ativista indo parar na delegacia.
Enquanto o debate se intensifica, destinos como Itacaré e Morro de São Paulo vivem um dilema cada vez mais evidente. De um lado, a economia turística depende do fluxo constante de visitantes estrangeiros. De outro, moradores e trabalhadores afirmam que a presença massiva de grupos com comportamentos culturais muito específicos tem alterado a dinâmica social das vilas.
Para muitos, o episódio envolvendo a ambulante em Itacaré é apenas um sintoma visível de uma tensão que já vinha crescendo silenciosamente.
Em um dos destinos mais famosos do litoral brasileiro, a convivência entre turismo internacional, identidade cultural local e conflitos políticos globais parece estar longe de encontrar um equilíbrio.
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